Todos os profissionais da psicologia sabem que cada etapa da terapia é importante, mas é na sessão inicial que se estabelecem os primeiros alicerces desse processo. É nesse momento que dois desconhecidos – cliente e terapeuta – iniciam uma jornada juntos, onde as expectativas são traçadas, os medos são compartilhados e as esperanças começam a brotar.
A terapia de casal, em particular, é um terreno onde as emoções estão sempre à flor da pele e onde a interação é tripla, entre os parceiros e o profissional. Portanto, a primeira sessão é ainda mais vital.
É justamente pensando nisso que convidamos Renata de Azevedo, para compartilhar conosco a sua vasta experiência. Ela irá nos guiar, passo a passo, pela estrutura que utiliza na primeira sessão com os casais que a procuram. Então, preparem suas anotações, abram suas mentes e seus corações para receber esse conhecimento que, temos certeza, será valioso para a prática de muitos de vocês.
Renata de Azevedo é psicóloga, especialista em Terapia de Família e Casal, pela UFRJ. Possui formação em Análise Transacional e é coautora do livro “A Arte da Guerra”, da ed. SerMais. Acredita no amor e nos relacionamentos duradouros, saudáveis e felizes. Ama ajudar as pessoas a melhorarem os seus relacionamentos. Antigamente, detestava falar em público, mas hoje é uma das coisas que mais gosta de fazer.
Transcrição
Olá, eu sou Renata Azevedo, e seja muito bem-vindo ao canal de terapia de casal na Academia do Psicólogo. No vídeo de hoje, vou falar com você sobre a primeira sessão, a entrevista de terapia de casal. Como eu costumo conduzir essa primeira sessão? Eu quero falar dessa sessão porque ela é muito importante, pois é ela que vai ser o início do nosso trabalho.
Quando um casal chega para buscar uma terapia, essa primeira sessão é que vai definir se o casal vai continuar ou não. Ela determina se o casal realmente precisa de terapia de casal, ou se seria mais indicado uma terapia individual. Então, essa sessão é muito importante.
Eu vou explicar para você como eu conduzo essa primeira sessão, quais são os elementos que eu considero mais importantes. Então, primeiro de tudo, eu me apresento, falo meu nome, agradeço por eles estarem ali, explico como vai ser a sessão, que é um bate-papo inicial para a gente poder se conhecer, para eles verem se vão gostar também, se vão se identificar com a abordagem, com o método. E que essa sessão é estruturada, diferente das outras sessões, e que essa sessão é estruturada porque eu preciso saber algumas coisas bem específicas deles para saber como eu posso ajudar.
Então por isso ela segue uma certa estrutura que as outras sessões não seguem. Então, primeiro de tudo, eu pergunto sobre o que trouxe eles a buscar uma terapia de casal. O que aconteceu para eles terem essa ideia? E aí eles vão falar de brigas, alguma coisa que aconteceu, enfim, eles vão falar sobre o que fez com que eles buscassem terapia de casal.
Às vezes eles vão falar de algo bem pontual, algo que aconteceu agora, tipo, “ah, o que aconteceu é que eu descobri que houve uma traição semana passada”. Então daí a gente decidiu fazer terapia de casal. “Ah, eu saí de casa e daí a gente decidiu fazer terapia de casal”. Então às vezes tem algo bem específico, recente, e às vezes não. Às vezes é assim, “ah não, o relacionamento tá ruim há muito tempo e agora a gente resolveu fazer terapia de casal”. “Ah, quanto tempo o relacionamento tá ruim?” “Ah, cinco anos”. Sei lá, há muito tempo, não é algo tão recente assim.
E aí, o que acontece, né? Eu sempre busco saber qual foi o estopim. Se aquilo ali tá acontecendo há muito tempo, por exemplo, “ah não, o relacionamento tá ruim há cinco anos”. “Tá, mas então por que vocês resolveram buscar terapia agora?” Assim, qual foi o ponto de decisão? Porque, por que vocês não resolveram buscar terapia antes ou por que vocês não resolveram buscar terapia depois? Teve algum estopim? Na maioria das vezes tem. Na maioria das vezes, “ah, teve, foi uma briga, assim, assim, assim”. “Ah, foi que aconteceu isso, isso e isso”. Nem sempre vai ter, tá? Mas na maioria das vezes vai ter. Porque existe um motivo, né? Se isso tá assim há tanto tempo, por que não antes? Por que não depois? Por que agora? Por que isso tá sendo procurado agora, tá?
Então esse é um outro ponto importante, aí o casal vai falar um pouquinho. Às vezes vai ter um que vai falar mais, o outro não vai falar quase nada. Então é importante puxar isso da outra pessoa. É importante você ter a opinião dos dois, os dois pontos de vista. Perguntar como é que a outra pessoa tá vendo aquilo ali. Como é que ela avalia aquela situação dentro do ponto de vista dela. Então isso é uma coisa importante.
Ah, essa primeira sessão é importante que os dois venham juntos. Eu gosto sempre que, se é uma terapia de casal, que venham os dois juntos nesse primeiro encontro, tá? Eu raramente faço a terapia, a entrevista da terapia de casal com um só. Isso é muito, muito raro. Eu não gosto disso. Eu prefiro sempre que venham os dois. Por que? Porque é uma terapia de casal. Então os dois precisam me conhecer, precisam se sentir à vontade ali no ambiente. Precisam decidir juntos se eles vão fazer ou não a terapia de casal. Então eles precisam experimentar, né? Fazer essa primeira sessão juntos pra poder decidir. Então normalmente são os dois juntos, tá?
E aí depois eu pergunto quais são as expectativas deles com relação à terapia. O que eles esperam da terapia? O que eles vêm buscar aqui na terapia? O que é mensurável, né? Qual é o objetivo mensurável da terapia? Como é que a gente sabe que o relacionamento melhorou e que a terapia ajudou isso? Tem que ter alguma coisa mensurável, porque senão fica muito subjetivo.
Então assim, “ah não, a gente briga todos os dias”. Como é que a gente sabe que melhorou? “Ah, porque agora a gente só briga uma vez por semana”. Sei lá, né? Enfim, mas alguma coisa que a gente consiga realmente avaliar se o relacionamento tá melhor ou não, porque senão fica muito subjetivo. Então quando eu pergunto das expectativas, eu busco sempre algo mais objetivo. Tipo assim, “ah, a gente quer melhorar o relacionamento”. “Tá, mas o que isso quer dizer, né? Como é que eu sei que o relacionamento de vocês melhorou, então?” “Ah, a gente quer se comunicar melhor”. “O que é isso novamente? Como é que eu sei que vocês estão conseguindo se comunicar melhor?” Então normalmente eu busco algo mais objetivo para que eles, para que eu consiga mensurar e para que eles também consigam mensurar e consigam visualizar e avaliar se o relacionamento realmente melhorou ou não, senão fica muito subjetivo.
Eu pergunto também como é que eles acham que é a terapia de casal, como é que eles acham que acontece ali. Por quê? Porque aí é importante desmistificar o que é terapia. Às vezes eles têm umas ideias fantasiosas, o que é que acontece ali, o que não acontece. “Ah, você vai dizer para a gente o que a gente tem que fazer”. “Ah, você vai dizer quem está certo e quem está errado”. Enfim, às vezes eles têm umas ideias mais fantasiosas, então é importante desmistificar isso. Por isso que eu pergunto sempre como é que eles acham que é uma terapia de casal.
Outra coisa também é como é que eles decidiram fazer terapia de casal. Quem decidiu? Quem deu a ideia? Como é que surgiu essa ideia? Então a ideia surgiu da esposa, surgiu do marido, como é que o outro recebeu essa ideia? Vocês pensaram nisso sozinhos? Alguém indicou para vocês? Alguém falou? “Olha, acho que eles deviam fazer, acho que eles deviam procurar”. Vocês leram isso em algum lugar? Então, saber também como é que essa ideia surgiu e como é que o outro recebeu.
Porque às vezes eles falam assim, “ah não, eu estou aqui porque ela falou, porque ele falou, mas eu não acredito em terapia não, eu acho que isso aqui não funciona não”. “Ah, estou aqui porque ele ou ela ficou me perturbando e aí eu resolvi vir para não ficar ouvindo depois”. Isso já é o que diz muita coisa, né? Isso já é um bom indicativo.
Então são essas coisas que é importante o terapeuta saber. Se realmente foi uma decisão em conjunto, se a pessoa está ali mas não está acreditando, se a pessoa nem quer estar ali, se a pessoa falou assim, “ah não, a pessoa falou que se não a gente terminaria ou então a gente não voltaria, a gente só voltaria se fizesse terapia de casal”. Então todos esses detalhes é importante você saber.
Como é que as pessoas chegaram até você, chegaram até a terapia de casal? Outra coisa que eu pergunto é, e se nada, se vocês não fizerem nada para mudar, se nada melhorasse, se vocês não estivessem aqui, se vocês não estivessem aqui buscando ajuda, querendo melhorar o relacionamento de vocês e o relacionamento continuasse exatamente da forma que está hoje em dia. Se continuasse por mais seis meses, por mais um ano, por mais dois anos, como é que vocês estariam daqui a seis meses, daqui a um ano, daqui a dois anos? Como é que vocês estariam, como é que vocês acham que seria o relacionamento de vocês se vocês não fizessem nada para modificar isso? Porque você já tem uma projeção do futuro, de como eles estão vendo o relacionamento, de quanto o relacionamento está ruim. Tem gente que vai falar assim, “ah, eu ficaria assim por mais dois anos, acho que a gente estaria da mesma forma, mas estaria junto”.
Isso já é um indicativo também para você. Então me fala assim, “ah não, eu não estaria junto de forma nenhuma, não, eu não aguento mais seis meses assim, não quero, não dá para mim, não dá”. “Para mim, ou a gente melhora, essa é a última tentativa, ou então não dá, não quero mais”.
Outra coisa também importante são os dados básicos, né? Vocês têm filhos? Qual o relacionamento? Você é namorado? Você é casado? Você é noivo? Você está separado? Você está junto? Estão morando na mesma casa ou não? Quanto tempo de relacionamento? Quanto tempo de casamento, se forem casados? Qual a idade de cada um? Profissão de cada um? Se os dois trabalham? Estes dados básicos. Uma outra coisa importante, se os dois, se algum dos dois, né, se os dois já fizeram ou fazem terapia individual, ou se eles já fizeram terapia de casal, então saber se eles têm algum histórico de terapia, tá? Isso é uma coisa também importante.
Uma outra coisa, o grau de insatisfação deles, eu sempre pergunto de zero a dez, sendo que zero é nada insatisfeito, está tudo ótimo, e dez é o máximo da insatisfação, ou seja, eu estou muito insatisfeito, eu não aguento mais. De zero a dez, qual o seu grau de insatisfação com relação ao relacionamento? E aí também a resposta dos dois. Qual o grau de um de insatisfação? Qual o grau de outro de insatisfação?
Ah, uma coisa importante com relação às expectativas, né, o que eles querem da terapia, o que eles vieram buscar, é importante você perguntar isso para os dois. Porque às vezes eu falo assim, “ah, a gente quer isso assim e assim”. “A gente quer melhorar isso, isso e isso”. Então por isso que é importante você perguntar para cada um quais são as expectativas. Porque às vezes um pode estar querendo ficar junto, ou pode estar querendo se separar. Então se só um falar, “não, a nossa expectativa é melhorar isso para ficar junto, tal”, você não sabe qual é a do outro, você não sabe se o outro realmente está nessa mesma expectativa. Às vezes o outro está querendo uma outra coisa completamente diferente. Então é importante você perguntar isso para os dois, tá certo?
Bom, então, só resumindo tudo, o que eu costumo perguntar nessa primeira sessão, nesse primeiro encontro da terapia de casal, eu faço sempre o encontro com os dois juntos, tá? Não faço um, depois o outro, não, são os dois juntos o tempo inteiro nessa primeira sessão. E aí eu pergunto, o que fez com que eles buscassem a terapia de casal? Por que eles decidiram buscar agora, não antes, não depois? Por que agora, se teve algum estopim? Como foi a decisão para buscar essa terapia? Quem pensou nisso, quem teve a ideia, como foi que o outro recebeu? Se aceitou, se não aceitou? Como foi que eles pensaram nisso, se eles pensaram sozinhos, se alguém indicou, se eles leram em algum lugar? Como foi? Quais as expectativas de cada um deles, o que eles esperam, o que eles buscam na terapia de casal? Eles estão indo ali pra quê? De forma bem objetiva e mensurável, o máximo objetivo, o máximo mensurável possível, tá? Como é que eles acham que é a terapia de casal? O que que eles acham que acontece ali dentro? Quais são as expectativas para poder desmistificar tudo isso? Os dados básicos, se os dois trabalham, se tem filhos, qual é o relacionamento? Quanto tempo tem de relacionamento? Quando é que eles começaram a perceber que o relacionamento começou a piorar? Essa queixa que eles estão trazendo, começou quando? Começou lá no início? Começou ontem? Quantos anos cada um tem? Se ambos trabalham? Enfim, esses dados básicos, né? Se fazem terapia? Se tem alguma experiência com terapia? Qual é o grau de insatisfação com o relacionamento? Como é que eles se veem? Se nada mudar, se o relacionamento continuar exatamente da forma que está, como é que eles se veem daqui a algum tempo, né? Seis meses, um ano, dois anos, como é que eles se veem?
Então, acho que com esses dados já dá para ter uma boa noção para você avaliar se realmente a terapia de casal seria mais indicada ou seria terapia individual, para você explicar para eles como é que é a terapia. Então, acho que com esses dados já dá para ter uma boa noção. E uma coisa importante, que eu não falei antes, mas lembrei de falar agora, tem uma perguntinha que eu gosto muito com relação aos objetivos, né? Eu falei da questão de ser mensurável.
Tem algumas pessoas que têm um pouco de dificuldade de dar essa resposta mais mensurável, de entender o que seria isso. Eles colocam muito na resposta subjetiva, eles têm um pouco de dificuldade algumas vezes. Então, eu costumo fazer a seguinte pergunta, eu costumo perguntar da seguinte forma. Como é que uma pessoa de fora, que não está dentro de vocês, não está sentindo o que vocês estão sentindo, não estão pensando o que vocês estão pensando, como é que uma pessoa de fora consegue saber se o relacionamento melhorou? O que essa pessoa de fora precisa ver, ver, ouvir? O que essa pessoa de fora precisa perceber para ela falar assim, “ah, olha, o relacionamento do fulano e da fulana melhorou realmente, porque está acontecendo isso e isso”? “Porque antes eles brigavam não sei quantas vezes, agora eles brigam tantos”. “Porque antes eles falavam tal coisa, agora eles falam outra”. “Antes eles faziam tal coisa, agora eles fazem outra”.
Então, como é que uma pessoa de fora consegue perceber que o relacionamento está melhor? Aí eles vão dar respostas mais objetivas com relação à atitude, ao comportamento. Normalmente, eu costumo usar essa pergunta se eu vejo que o casal está tendo alguma dificuldade para responder essas expectativas de forma mais objetiva, tá certo?
Bom, então é isso. Com esses dados já dá para você ter uma boa noção de como é que o casal está e já dá para ter uma ideia de se realmente o mais indicado seria a terapia de casal ou a terapia individual, dá para avaliar bem com essas informações iniciais. Tá certo? Então, espero que ajude e até um próximo vídeo. Até breve.



