Cheguei em casa e minhas coisas estavam todas encaixotadas na porta. Que pesadelo. Eu tinha sido despejado do consultório, despejado de casa e estava a 400 km do parente mais próximo. Eu tinha três dias para arranjar um novo lugar para morar e atender meus pacientes e fazer a mudança.

Essa história começou bem antes: Eu tinha acabado de me formar e, desinformado e arrogante, decidi alugar uma sala pra montar meu consultório. Puxei papo com uma conhecida, para saber se ela tinha algum lugar para me indicar e… ela mesma era dona de uma sala.

Parecia mágico. Tudo se encaixou perfeitamente. Seríamos vizinhos de sala e profissionais unidos com um objetivo em comum.

Pouco tempo depois, veio a proposta: “Você já mora sozinho, certo? Eu tô com um quarto livre na minha casa, se você quiser, você aluga aqui, a gente negocia um valor só e podemos montar um consultório juntos!”

Eu topei.

Dois outros colegas também toparam e colocaram dinheiro para ajudar na reforma. Em dois meses, tínhamos um espaço reformado, com três salas de atendimento, CNPJ e muita ambição.

Com o tempo, foram surgindo alguns problemas. A convivência era difícil e a cada dia surgia uma nova discussão com a nossa sócia, sempre instável quanto ao que queria.

De repente, ela não quis mais sublocar a sala dela. De repente, ela quis subir o valor do aluguel. De repente, ela achou melhor eu procurar outro lugar pra morar… De repente, ela não nos quis mais lá.

Não mais que de repente, minhas coisas estavam todas encaixotadas.

E eu fiquei na situação do começo do texto, sem saída aparente.

Psicologia é uma coisa maravilhosa

Tive um professor na faculdade que sempre falava:

“Psicologia é uma coisa maravilhosa. É uma pena que para trabalhar com psicologia você tenha que trabalhar com psicólogo, porque se tem um bicho que gosta de ferrar com psicólogo… é o psicólogo.”

Não foi falta de aviso.

Muita gente tinha me mandado tomar cuidado depois da faculdade, dizendo que psicólogos “não são uma raça unida” e que nosso meio de trabalho é um cão-come-cão.

Mas se parece que, depois de ficar sem ter onde morar nem trabalhar por causa de uma experiência ruim com sócios, eu não voltaria a trabalhar com mais ninguém… eu fui pelo caminho oposto.

Meus outros dois sócios e eu decidimos continuar trabalhando juntos.

Naquela situação terrível, eles bancaram a aposta e me ajudaram muito a não desistir de tudo. Um deles negociou com o avô o aluguel de uma casa para fazermos um consultório, onde eu poderia ocupar o sótão como um quarto. O outro passava dias inteiros limpando frestinha por frestinha do forro da casa, pra deixar tudo bonito.

Me acolheram e me ajudaram a conseguir máquina de lavar e coisas de cozinha, que eu tinha deixado para trás ao morar com a antiga sócia.

Trabalhamos feito cachorros até deixar tudo pronto, mas hoje temos nosso espaço e, veja só, ninguém aqui quer ferrar com ninguém.

Tentamos fazer diferente

Em vez de tentar lucrar em cima dos nossos colegas, decidimos que a nossa filosofia seria a de incentivar um ao outro.

Abrimos as portas para o “inimigo”.

Começamos a sublocar salas por um preço justo. Outros profissionais poderiam vir e usufruir da nossa estrutura sem precisar pagar uma fortuna por isso.

Montamos grupos de supervisão mútua, para ninguém se sentir isolado no seu trabalho. Na recepção, dispomos os cartões de todos os que sublocam salas no nosso espaço. Um indica o outro, sempre que possível. E procuramos fazer com que todo mundo que trabalha conosco se sinta em casa.

O que aconteceu?

Não faltou paciente pra ninguém. Hoje temos vários profissionais conosco, uma equipe que se identifica mutuamente, se ajuda e em que todos prosperam e sabem que podem confiar no colega caso precisem.

Várias pessoas já deixaram de sublocar com a gente para montar seus próprios espaços, e sublocar também.

E o que fazemos? Seguimos indicando essas pessoas.

Pôxa vida, se a gente escolheu a mesma profissão é porque deve acreditar em coisas similares. Não nos custa nada dar um passo à frente e acreditar uns nos outros.

Não pensem que tudo são flores

Outro dia, um dos meus sócios apareceu na clínica com um porta cartões de visita em acrílico fumê.

Temos uma mesa na recepção onde os cartões ficam apoiados, mas ele fez questão de ter os dele em um aparato plástico próprio, maior e acima do que os outros, chamando mais atenção.

Como sou muito maduro, lidei com isso da maneira mais adulta:

Comprei um apoio enorme de plástico, forrei com papel crepom vermelho e escrevi “ESSE AQUI É MELHOR” com cola glitter.

Deixei meus cartões lá.

No dia seguinte, estranhamente, nenhum dos porta-cartões estava mais na mesa.

Acho que temos fantasmas na clínica.

Mas, só pra garantir

De qualquer forma, só pudemos chegar ao ponto de abrir nossas portas para ajudar quem seria, em outro lugar, considerado concorrência, quando tomamos o controle do que queríamos para nossa carreira.

Para saber lidar com sócios, parceiros e colegas, só tendo um senso muito forte de quem se é e acreditando muito no próprio trabalho, para não vê-lo ameaçado por qualquer pessoa que trabalhe na mesma área.

Com limites definidos e paciência com as dificuldades de cada um, sempre seremos mais fortes juntos.

Mas, só pra garantir, no meu próximo apartamento eu vou morar sozinho.

AUTOR

FLÁVIO VOIGHT

vioflex@gmail.com

Flávio Voight é psicólogo e escritor. Sócio-fundador da Oriente Psicólogos Associados, em Curitiba, atua com atendimento clínico e mentoria para profissionais que queiram ampliar sua presença nas redes sociais. Acredita que sensibilidade, leveza e bom humor são sempre o melhor caminho para tratar do ser humano – e para ser um também.

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