A teoria do desenvolvimento moral de Lawrence Kohlberg representa um marco significativo no estudo da moralidade e do raciocínio moral. Essencialmente cognitiva, esta teoria, que evoluiu a partir dos trabalhos de Jean Piaget sobre o julgamento moral em crianças (1932), foi desenvolvida por Kohlberg em 1958. Ela foca no processo de pensamento que ocorre quando se decide se um comportamento é certo ou errado, enfatizando como alguém resolve dilemas morais, ao invés de focar nas decisões tomadas ou nas ações realizadas.
Kohlberg propôs que o desenvolvimento moral ocorre em seis estágios distintos, os quais são percorridos progressivamente desde a infância até a idade adulta. Ele agrupou esses estágios em três categorias amplas de raciocínio moral: pré-convencional, convencional e pós-convencional. Cada nível está associado a estágios cada vez mais complexos de desenvolvimento moral, sugerindo que as pessoas avançam por esses estágios em uma ordem fixa e que o entendimento moral está vinculado ao desenvolvimento cognitivo. Central para essa teoria é a noção de que a lógica moral é primariamente orientada para buscar e manter a justiça.
Apesar de sua grande influência, a teoria de Kohlberg foi inicialmente baseada em pesquisas que utilizaram apenas meninos como sujeitos. Nas décadas de 1980 e 1990, a teoria foi criticada pela psicóloga americana Carol Gilligan, que argumentou que Kohlberg universalizava padrões de desenvolvimento moral exibidos por meninos, ignorando padrões distintos característicos das meninas. Essas críticas sugerem que a teoria pode ser tendenciosa, dada a limitada demografia dos sujeitos estudados.
Neste artigo, discutiremos como Kohlberg desenvolveu sua teoria do desenvolvimento moral e os seis estágios que ele identificou como parte desse processo. Além disso, abordaremos algumas críticas à teoria de Kohlberg, ressaltando a importância de considerar perspectivas diversas no estudo do desenvolvimento moral.
O Que É Desenvolvimento Moral?
Desenvolvimento Moral: Definição e Contextualização
O desenvolvimento moral é um processo pelo qual as pessoas desenvolvem a distinção entre certo e errado (moralidade) e engajam-se no raciocínio entre os dois (raciocínio moral). Este tema não apenas capturou a atenção de pais, líderes religiosos e filósofos ao longo dos tempos, mas também se tornou um ponto de discussão crucial na psicologia e na educação. Surge, assim, uma questão fundamental: de que maneira as influências parentais ou sociais desempenham um papel no desenvolvimento moral? E todas as crianças desenvolvem a moralidade de maneiras similares?
A Teoria de Kohlberg no Desenvolvimento Moral
O psicólogo americano Lawrence Kohlberg oferece uma das teorias mais conhecidas que explora essas questões fundamentais. Seu trabalho, que modificou e expandiu as ideias anteriores de Jean Piaget, focou mais em explicar como as crianças desenvolvem o raciocínio moral. Kohlberg estendeu a teoria de Piaget, propondo que o desenvolvimento moral é um processo contínuo que ocorre ao longo da vida. Sua teoria delineia seis estágios de desenvolvimento moral dentro de três diferentes níveis.
Críticas Contemporâneas à Teoria de Kohlberg
Nos anos recentes, a teoria de Kohlberg foi alvo de críticas por ser considerada centrada no Ocidente e tendenciosa em relação aos homens, dado que ele utilizou principalmente sujeitos de pesquisa masculinos. Além disso, apontou-se que a teoria possuía uma visão de mundo restrita, baseada em sistemas de valores e perspectivas da classe média alta ocidental. Essas críticas destacam a necessidade de uma abordagem mais ampla e inclusiva no estudo do desenvolvimento moral, considerando diversas culturas e contextos socioeconômicos.
A discussão em torno do desenvolvimento moral, influenciada significativamente pela teoria de Kohlberg, continua a evoluir, refletindo a complexidade e a diversidade das experiências humanas em relação à moralidade e ao raciocínio ético.
A Formação da Teoria de Desenvolvimento Moral de Kohlberg
Lawrence Kohlberg, um renomado psicólogo americano, dedicou-se a explorar como os indivíduos desenvolvem o raciocínio moral. Baseando-se na teoria de Jean Piaget, Kohlberg ampliou e modificou o entendimento do desenvolvimento moral, propondo que este é um processo contínuo que ocorre ao longo da vida. Ele delineou seis estágios de desenvolvimento moral, distribuídos em três níveis diferentes.
O cerne da pesquisa de Kohlberg estava em como as pessoas desenvolvem a distinção entre o certo e o errado, engajando-se em um raciocínio moral a respeito. Para investigar essas questões, Kohlberg utilizou uma série de dilemas morais apresentados aos seus sujeitos de estudo, complementados por entrevistas para determinar o raciocínio por trás dos julgamentos de cada participante.
Um dos exemplos mais conhecidos em suas pesquisas é o dilema “Heinz Rouba o Medicamento”. Neste cenário, a esposa de um homem chamado Heinz está sofrendo de câncer, e a única esperança para sua cura é um medicamento recém-descoberto por um farmacêutico local. Este medicamento, custando $200 para ser produzido, era vendido a $2.000 por dose. Heinz, incapaz de arrecadar mais do que $1.000, tenta negociar com o farmacêutico, pedindo um preço menor ou a possibilidade de pagar ao longo do tempo. Diante da recusa do farmacêutico, Heinz decide invadir a farmácia e roubar o medicamento. Kohlberg não estava focado na resposta ao dilema, se Heinz estava certo ou errado, mas sim no raciocínio por trás da decisão de cada participante.
A metodologia de Kohlberg foi crucial para classificar o raciocínio dos participantes nos estágios de sua teoria de desenvolvimento moral. Essa abordagem trouxe um novo entendimento sobre a progressão do pensamento moral, evidenciando a complexidade e a natureza dinâmica do julgamento moral.
Estágios do Desenvolvimento Moral segundo Kohlberg
A teoria do desenvolvimento moral de Lawrence Kohlberg é estruturada em três níveis principais, cada um abrangendo estágios específicos que refletem a evolução do raciocínio moral. Esta seção detalha cada nível e seus respectivos estágios.
Nível 1: Moralidade Pré-Convencional
Este é o período inicial do desenvolvimento moral, que se estende até cerca dos 9 anos de idade. Neste nível, as decisões das crianças são primariamente moldadas pelas expectativas dos adultos e pelas consequências de transgredir as regras.
- Estágio 1 (Obediência e Punição): Característico principalmente em crianças pequenas, mas também observado em adultos, este estágio é marcado pela percepção de que as regras são fixas e absolutas. A obediência é importante como meio de evitar punições.
- Estágio 2 (Individualismo e Troca): Neste estágio, as crianças começam a considerar diferentes pontos de vista, julgando as ações com base em como atendem às necessidades individuais. A reciprocidade é valorizada, mas apenas se servir aos próprios interesses.
Nível 2: Moralidade Convencional
Este período é marcado pela aceitação das regras sociais sobre o que é bom e moral. Adolescentes e adultos internalizam os padrões morais aprendidos com modelos de papel e da sociedade.
- Estágio 3 (Desenvolvimento de Boas Relações Interpessoais): Conhecido como a orientação “menino bom-menina boa”, este estágio é focado em atender às expectativas e papéis sociais. Há uma ênfase na conformidade, na bondade e na consideração de como as escolhas influenciam as relações.
- Estágio 4 (Manutenção da Ordem Social): O foco deste estágio é a manutenção da ordem social. As pessoas começam a considerar a sociedade como um todo em seus julgamentos, priorizando a manutenção da lei e da ordem, seguindo as regras, cumprindo com o dever e respeitando a autoridade.
Nível 3: Moralidade Pós-Convencional
Neste nível, as pessoas desenvolvem um entendimento de princípios abstratos de moralidade.
- Estágio 5 (Contrato Social e Direitos Individuais): As ideias de contrato social e direitos individuais levam as pessoas a considerar os diferentes valores, opiniões e crenças de outros. As leis são importantes para a manutenção da sociedade, mas os membros da sociedade devem concordar com esses padrões.
- Estágio 6 (Princípios Universais): O último nível do raciocínio moral de Kohlberg é baseado em princípios éticos universais e raciocínio abstrato. Neste estágio, as pessoas seguem esses princípios internalizados de justiça, mesmo que entrem em conflito com leis e regras.
Kohlberg acreditava que apenas uma pequena porcentagem de pessoas atinge os estágios pós-convencionais, cerca de 10 a 15%. Análises indicam que enquanto os estágios um a quatro podem ser considerados universais em populações ao redor do mundo, os estágios cinco e seis são extremamente raros em todas as populações.
Aplicações Práticas da Teoria de Desenvolvimento Moral de Kohlberg no Cotidiano
A teoria de desenvolvimento moral de Lawrence Kohlberg não é apenas um conceito acadêmico, mas também possui aplicações práticas significativas, especialmente na educação e na criação de filhos. Entender esta teoria pode ajudar pais e educadores a orientar o desenvolvimento do caráter moral das crianças e adolescentes, adaptando as estratégias de acordo com os estágios de desenvolvimento moral de cada indivíduo.
Aplicação na Educação Parental
Para os pais, a compreensão da teoria de Kohlberg pode orientar na abordagem de questões morais com seus filhos. Com crianças menores, por exemplo, o foco pode estar na obediência às regras, ressaltando a importância da conformidade e das consequências de não segui-las, elementos cruciais do primeiro estágio da moralidade pré-convencional. Já com crianças mais velhas, os pais podem enfatizar expectativas sociais e a importância do desenvolvimento de boas relações interpessoais, abordagens relevantes para os estágios do nível convencional de moralidade.
Aplicação no Ambiente Escolar
Na educação, os professores podem utilizar a teoria de Kohlberg para fornecer orientações morais adicionais, adaptadas ao nível de desenvolvimento de seus alunos. Por exemplo, um professor de jardim de infância pode reforçar o desenvolvimento moral ao estabelecer regras claras na sala de aula e as consequências para sua violação, ajudando as crianças no primeiro estágio do desenvolvimento moral.
Em contrapartida, um professor do ensino médio pode se concentrar mais nos estágios três (desenvolvendo boas relações interpessoais) e quatro (mantendo a ordem social). Isso pode ser feito envolvendo os alunos na definição das regras da sala de aula, proporcionando-lhes uma melhor compreensão dos motivos por trás dessas regras e incentivando o respeito mútuo e a responsabilidade social, elementos fundamentais desses estágios.
Essas aplicações demonstram a relevância da teoria de Kohlberg para além dos círculos acadêmicos, influenciando práticas educacionais e parentais. Ao aplicar esta teoria na orientação do desenvolvimento moral, pais e educadores podem desempenhar um papel vital no cultivo de indivíduos socialmente responsáveis e moralmente conscientes.
Críticas à Teoria de Desenvolvimento Moral de Kohlberg
Esta teoria, apesar de ser um marco na psicologia moral, não está isenta de críticas. Essas críticas apontam para limitações em várias dimensões da teoria, refletindo desafios tanto em sua abordagem quanto em sua aplicabilidade.
Divergência entre Raciocínio e Comportamento Moral
Uma crítica significativa à teoria de Kohlberg é que ela se concentra no pensamento moral, mas existe uma distinção considerável entre saber o que deveríamos fazer e nossas ações reais. O raciocínio moral, portanto, pode não levar diretamente a um comportamento moral.
Superestimação da Justiça
Críticos apontam que a teoria de Kohlberg superestima o conceito de justiça nas decisões morais. Fatores como compaixão, cuidado e outras emoções interpessoais podem desempenhar um papel importante no raciocínio moral, mas são menos enfatizados na teoria de Kohlberg.
Viés Cultural
Há uma preocupação de que a teoria de Kohlberg possua um viés cultural. Culturas individualistas enfatizam os direitos pessoais, enquanto culturas coletivistas destacam a importância da sociedade e da comunidade. Culturas orientais, mais coletivistas, podem ter perspectivas morais diferentes das previstas na teoria de Kohlberg.
Viés de Idade
A maior parte dos sujeitos nos estudos de Kohlberg eram crianças com menos de 16 anos, que obviamente não tinham experiência com questões como casamento. O dilema de Heinz pode ter sido muito abstrato para essas crianças compreenderem, e um cenário mais aplicável às suas preocupações diárias poderia ter levado a resultados diferentes.
Viés de Gênero
Críticos como Carol Gilligan sugeriram que a teoria de Kohlberg era tendenciosa em relação ao gênero, uma vez que todos os sujeitos em sua amostra eram do sexo masculino. Kohlberg acreditava que as mulheres tendiam a permanecer no terceiro nível de desenvolvimento moral, enfatizando relações sociais e o bem-estar dos outros. Por outro lado, Gilligan argumentou que a teoria de Kohlberg superestima conceitos como justiça e não aborda adequadamente o raciocínio moral baseado em princípios e éticas de cuidado e preocupação com os outros.
Essas críticas refletem a necessidade de uma abordagem mais abrangente e inclusiva no estudo do desenvolvimento moral, considerando uma variedade mais ampla de perspectivas e experiências humanas. A compreensão dessas limitações é fundamental para psicólogos e educadores ao aplicarem teorias de desenvolvimento moral em suas práticas profissionais.
Teorias Alternativas de Desenvolvimento Moral na Psicologia
Além da teoria de Kohlberg, existem várias outras teorias significativas sobre o desenvolvimento moral na psicologia. Essas teorias fornecem perspectivas diferentes e complementam a compreensão da evolução do raciocínio moral.
Teoria do Desenvolvimento Moral de Piaget
A teoria de Kohlberg é uma expansão da teoria do desenvolvimento moral de Jean Piaget. Piaget descreveu um processo de desenvolvimento moral em três estágios:
- Estágio 1: A criança está mais preocupada em desenvolver e dominar habilidades motoras e sociais, sem uma preocupação geral com moralidade.
- Estágio 2: A criança desenvolve um respeito incondicional tanto pelas figuras de autoridade quanto pelas regras existentes.
- Estágio 3: A criança começa a ver as regras como arbitrárias, considerando também as intenções do ator ao julgar se um ato ou comportamento é moral ou imoral.
Kohlberg expandiu essa teoria para incluir mais estágios no processo. Ele acreditava que o estágio final é raramente alcançado pelos indivíduos, ao contrário dos estágios de desenvolvimento moral de Piaget, que são comuns a todos.
Teoria das Fundações Morais
Proposta por Jonathan Haidt, Craig Joseph e Jesse Graham, a teoria das fundações morais é baseada em três princípios de moralidade:
- A intuição se desenvolve antes do raciocínio estratégico. Ou seja, nossa reação vem primeiro, seguida pela racionalização.
- A moralidade envolve mais do que dano e justiça. Dentro deste segundo princípio, existem várias considerações relacionadas à moralidade, incluindo: cuidado vs. dano, liberdade vs. opressão, justiça vs. trapaça, lealdade vs. traição, autoridade vs. subversão e santidade vs. degradação.
- A moralidade pode unir grupos e cegar indivíduos. Quando as pessoas fazem parte de um grupo, elas tendem a adotar os mesmos sistemas de valores do grupo e podem sacrificar sua própria moral em benefício do grupo.
Enquanto a teoria de Kohlberg é focada principalmente em ajudar vs. prejudicar, a teoria das fundações morais abrange várias outras dimensões da moralidade. No entanto, esta teoria também não explica as “regras” que as pessoas usam ao determinar o que é melhor para a sociedade.
Teorias Normativas de Comportamento Moral
Existem várias outras teorias que tentam explicar o desenvolvimento da moralidade, especificamente em relação à justiça social. Algumas se enquadram na categoria de institucionalistas transcendentais, que envolvem a tentativa de criar uma “justiça perfeita”. Outras são focadas na realização, concentrando-se mais na remoção de injustiças.
Uma teoria que se enquadra na segunda categoria é a teoria da escolha social. A teoria da escolha social é um conjunto de modelos que procuram explicar como os indivíduos podem usar suas preferências para impactar a sociedade como um todo. Um exemplo disso é a votação, que permite que a maioria decida o que é “certo” e “errado”.
Essas teorias alternativas proporcionam um panorama mais diversificado sobre como as pessoas desenvolvem e aplicam conceitos morais, ampliando o entendimento dos psicólogos sobre as complexidades do desenvolvimento moral humano.
Referências e Leitura Adicional: VeryWellMind, Wikipedia, Britannica, Simply Psychology


