Vamos conversar hoje a respeito dos experimentos em Gestalt Terapia.

Para mim esse sempre foi um terreno árido e durante muito tempo nada familiar (hoje tenho menos expectativas e sigo o fluxo). Eu imagino que não tenha sido só comigo, e a pergunta é: você sabe conduzir um experimento em Gestalt terapia?

O terapeuta Gestáltico tem uma ampla gama de intervenções ativas a sua disposição e pode utilizar estas para aumentar a conscientização de partes da personalidade ou de sentimentos que estão submersos no inconsciente de seus clientes.

Estas técnicas devem ser aplicadas dentro de parâmetros éticos, sempre respeitando o tempo do cliente e a disponibilidade dele em fazê-los. Por isso vai aqui um alerta importante, mais é menos, ou seja, não vá com sede ao pote toda vez que sentir-se seguro para aplicar algum experimento, tão importante quanto sua segurança é não perder o foco do cliente.

Outro alerta: é necessário primeiro estabelecer um vínculo entre vocês, sem isso à adesão e confiança do cliente para envolver-se nos experimentos será prejudicada.

E ainda: considerar o seu preparo para o fechamento de um experimento; precisamos ser bons em improvisos e estar abertos a eles, sendo que não existe uma receita de antes, durante e depois destas vivências, por tratar-se de um fluxo às vezes incontínuo do cliente com tais vivências.

Vai aqui aquela mesma premissa que eu não canso de escrever: o terapeuta precisa ter um suporte psicológico (ou seja, ser terapeutizado) e fazer supervisão de seus atendimentos (independente do tempo de atuação).

Ferramentas que o Gestalt Terapeuta pode usar nas intervenções

Quando falamos em ferramentas nos referimos à exercícios e experimentos que aumentam a consciência de partes psíquicas (ou que evoquem emoções) negadas ou desconhecidas dos clientes, com a intenção de que isso o ajude a ampliar e a experienciar novas formas de se expressar (não estamos preocupados em alcançar um resultado, apenas fazê-lo entrar em contato com essas partes).

Para você ver o mestre Perls atuando veja este vídeo de Perls atendendo a cliente Glória e esta demonstração de atendimento.

Nestes vídeos vemos experimentos que demonstram o quanto Perls seguia o fluxo da fala do cliente ao mesmo tempo em que desconstruía as histórias prontas, trazendo a fala para o aqui e agora e na primeira pessoa do singular (“eu sou um” “eu penso” “eu estou”… no lugar de outro objeto ou de outra pessoa).

Quando utilizar um experimento?

  • Na minha experiência clínica utilizo um experimento quando percebo uma alienação de partes importantes das emoções (choro, raiva, alegria, tristeza);
  • Quando quero ampliar a visão de um determinado evento doloroso na vida desta pessoa;
  • Ou ainda promover uma conversa que não pôde ser feita com alguém importante (estabelecer um dialogo imaginário entre o cliente e essa pessoa) da qual às vezes teve muitos fragmentos perdidos de dor, de reconciliação, de raiva, etc;
  • Às vezes também peço para que ele observe sua postura ou sinais não verbais, afim de que ele perceba e me fale o que isso diz a respeito dele;
  • Ou também peço que encene um evento futuro no qual a pessoa se sente ameaçada ou incapaz de vivenciá-la ou realizá-la.

Os exemplos que serão citados foram utilizados por mim em experimentos reais de situações singulares de cada cliente.

Ou seja, é importante salientar que são experimentos adaptado a cada cliente de forma individual e usado em tempo hábil, dentro de um contexto que ofereça segurança e suporte.

Existem infinitas possibilidades de se trabalhar com isso… Vamos ver algumas?

Experimentos na prática

Uso de afirmações e perguntas para focar no que está acontecendo naquele momento.

Podemos perguntar: “O que você está pensando agora?”;“Quando falamos sobre este tema o que você sente?”; “Veja se combina dizer…” depois de algo que ele me contou em que apareceu algo sobre si mesmo. Exemplo: “Eu sou exigente, eu sou chato com as pessoas. Etc.”.

Pedir para que o cliente diga: “Quando eu não sei o que fazer eu faço isso ou aquilo”, depois também que ele me conta algo de seu comportamento. Exemplo: “Quando eu não sei o que fazer ou o que dizer eu me torno estúpido com as pessoas.”; “Quando eu não dou conta de algo eu responsabilizo o outro.” Etc. “Eu estou consciente que eu não dou conta disso ou daquilo”… “que eu não quero mais” “que eu estou sofrendo”, “que é difícil assumir isso”, etc…

Expressões Verbais

A consciência pode ser ampliada, por meio da linguagem verbal, entendendo que os padrões de fala de todas as pessoas são considerados a forma de expressar seus sentimentos, pensamentos e atitudes.

Podemos pedir para que o cliente altere um pergunta para uma declaração direta. Exemplo: “Será que eu gosto dele?” Experimente dizer “eu gosto dele”. Pedimos isso para que ele comece a assumir responsabilidades por aquilo que ele quer que o “outro” responda. Ou podemos pedir para que mude termos como “talvez” ou “eu acho” a fim de mudar declarações ambivalentes e fracas por declarações mais claras e diretas.

Expressões não verbais

Podemos melhorar a consciência do cliente por meio da linguagem do seu próprio corpo, que pode variar desde técnicas de respiração, até movimentos corporais. Eu costumo pedir para intensificar movimentos corporais (posso pedir para relaxar uma parte do corpo e depois tencionar).

Exemplo: “percebi que ao falar de tal situação você franziu o cenho, você pode intensificar esta ação?”. Ou seja, exercícios que possam ajudá-lo a expandir sua consciência corporal.

Auto diálogo

Na minha experiência clínica eu acredito que praticamente todo adulto tem uma criança ferida dentro de si (proponho que conheçam a obra de Alice Miller – O drama da criança bem dotada). Com este experimento proponho que o cliente entre em contato com essa criança, para enxergá-la e promover o diálogo entre ela e agora o seu adulto pode ser muito curativo.

Não só o diálogo com a criança, posso também promover uma conversa com outras partes alienadas do cliente (posso utilizar a técnica da cadeira vazia fazendo com que ele converse com suas partes). Exemplo: Sua parte que quer fazer tal coisa com a parte que o censura.

Dramatização

A intenção aqui é aumentar a consciência de seus sentimentos ou de alguma parte da existência do cliente, por meio da dramatização. Pode-se pedir para que ele exagere um sentimento, pensamento ou movimento. Às vezes peço para que ele fale como ou represente tal pessoa que o deixa nervoso, etc.

Fantasia Guiada

Eu costumo utilizar as técnicas da hipnose de Milton Erickson. O livro “Sapos em Príncipes”, de Richard Bandler e John Grinder, também me ajudou bastante. Eu inicio pedindo para que o cliente feche seus olhos e vou guiando seus pensamentos a um local específico, uma cena, etc, e aos poucos vou incentivando-o a entrar dentro dela.

Vou explorando os sentimentos e a elaboração que o próprio cliente faz (peço para que de olhos fechados ele me diga o que está vendo, onde ele está, ou até onde ele conseguiu ir, o que está sentindo, etc).

Outros livros importantes para que você se solte neste experimento e tenha um vasto caminho de possibilidades de fantasias guiadas são: “Descobrindo crianças”, de Violet Oaklander, “Torna-se presente: Experimentos em Gestalt Terapia”, de Jonh O. Stevens. E, praticamente todas as obras em GT você pode encontrar neste link.

Trabalhando com sonhos

Trazemos o sonho ou um pedaço dele, para o aqui e agora, pedimos para que o cliente narre à cena no presente e na primeira pessoa. É necessário escutar primeiro o sonho com todos os seus detalhes. Sabemos que cada parte dele representa os lados contraditórios e inconscientes do cliente.

O diálogo entre estas partes o leva a uma consciência progressiva de seus sentimentos e temas importantes de sua vida.

Existem vários livros que abordam os trabalhos com sonhos, ou seja, não faltará bibliografia para você avançar neste tema. Existe um livro que trata exclusivamente dele: “Gestalt e sonhos”, de Alberto Pereira Lima filho. Alguns teóricos da GT chegam a afirmar que se você não recorda seus sonhos não tem como ser atendido por um GT, de tão importante que são para eles trabalhar com esta temática.

É isso por hoje, espero que de alguma forma eu tenha ajudado a ampliar as vastas possibilidades de experimentos em GT. Não tenha compromisso com o sucesso, tenha compromisso com seu cliente. Até hoje (que eu saiba) ninguém morreu (nem cliente, nem terapeuta) ao propor e realizar um experimento em GT.

E já vou avisando, no começo nunca achamos que fizemos o melhor ou que a experiência foi boa suficiente, é normal isso acontecer, minha dica é só aprendemos fazendo.

Algumas das minhas únicas considerações estão no começo deste texto.

Agora é com vocês… Depois me digam como foi!

Um grande Abraço!

Psicóloga, Mestra em educação com 21 anos de atuação em clínica e desenvolvimento de pessoas. Palestrante e Professora. Duas formações em Gestalt terapia e neste canal ela vai contar o que aprendeu e como a Gestalt transformou sua atuação no consultório e o seu jeito de ver e viver a vida.

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