Mas que nome pra um texto aqui da Academia hein Weslley? Nem parece ciência. (Isso foi o que disseram meus pensamentos quando comecei a escrever esse texto depois de empurrar com a barriga com todas as forças que eu consegui reunir. Obs: Nós nos julgamos o tempo todo. Apenas note).

Senta que lá vem textão de despedida, mas espera que já explico isso melhor…

Se vocês acompanharam minha história aqui na Academia vão observar que eu falei muito de TCC, depois falei muito de ACT e depois não falei mais nada. Isso é o que ACT chamaria de esquiva experiencial.

Em outras palavras, esta pessoa que humildemente vos fala, momentaneamente abriu mão de algo muito importante de sua vida por sentir: medo, insegurança, sensação de incapacidade, falta de autenticidade. Só que em algum momento enquanto eu experimentava todas essas sensações elas deixaram de fazer parte de mim e passaram a definir quem eu era: uma farsa. Isso é o que a ACT definiria como fusão cognitiva.

Esse foi um ano conturbado, que de Trumps eleitos a aviões cheios de sonhos despencando do céu… Vou te dizer! Tá de parabéns e já tá quase no fim.

Garanto a vocês que em muitos desses meus momentos surgia o “por que eu?”. Esses eram os momentos em que eu possivelmente pensava que apenas eu sofria e ansiava por uma solução para o sofrimento, afinal não é assim que resolvemos tudo no “mundo das coisas”?

Enquanto isso a ACT me ajudava a compreender que o sofrimento é inerente a todo ser humano e que eliminar parte dele seria equivalente a eliminar também uma parte de quem eu era, ou seja, grande quantidade de energia foi continuamente despendida em algo que no fim era impossível de se concretizar.

Sobre vivenciar os conceitos da ACT

Leaping Off Dock

Eu estava dedicando mais de oito horas do meu dia a pensar nos momentos em que eu já tinha passado fora dali ou que viria a viver depois do “fim do expediente”. Era um dia inteiro questionando porque tinha que ver a luz do dia através de uma janela tão pequena e aquilo não parecia justo. A ACT diria que eu passava todo esse tempo distante do momento presente.

Toda essa ansiedade que eu senti nesses últimos tempos e que eu tanto tentei eliminar foi o que me fez observar minha vida com um pouco mais de curiosidade e entender que havia muito mais em mim do que todos aqueles pensamentos me diziam. Segundo a ACT, esse era eu trabalhando minha relação com meu eu contextual.

Meu trabalho não estava em eliminar a ansiedade, mas me relacionar com ela de uma forma diferente. Afinal, eu já havia tentado brigar com ela de todas as formas e nada disso parecia estar sendo muito útil. A ACT me convidaria a vivenciar minha desesperança criativa.

Mal sabia eu que essa experiência com a ansiedade e com os medos era algo que nossos parentes lá do tempo das cavernas já conheciam e que nos possibilita hoje estar no topo da evolução da espécie (e que também nos ajudou a não ter que caçar nosso almoço todos os dias) , mas isso a RFT vai explicar melhor.

Me livrar da ansiedade teria me tirado também a oportunidade de repensar minhas escolhas e de reconhecer que a inspiração e satisfação que todos pareciam ter em levantar pra trabalhar numa segunda braba era utopia. Mais tarde, a ACT ia me explicar que muitas dessas pessoas que se levantam da cama todas as manhãs em condições muitas vezes pior que as minhas (olha uma expressão de compaixão aí, mas isso é assunto pra depois) se levantaram por estarem movidas por valores.

Algumas outras (como eu) levantavam-se (com enorme pesar) para cumprir objetivos, como pagar contas (afinal elas nunca vão parar de chegar).

Na minha humilde opinião, a principal diferença entre valores e objetivos está na perenidade que os distancia. Acordamos hoje, amanhã e depois com o objetivo de ter dinheiro pra levar comida pra casa ou talvez movidos por valores como ver nossa família bem alimentada e vê-la desfrutar de uma refeição saborosa. Percebe a diferença?

No meu caso, o X da questão não estava em lutar contra o mal estar generalizado que o meu trabalho no RH me causava. Estava em perceber como estar junto dos meus pacientes me dava prazer e me proporcionava um sentimento de realização. Como parecia estimulante encontrar as mais variadas maneiras de pensar em ferramentas que facilitassem nosso trabalho, tornando-o não sem dor, mas também não envolvido por uma nuvem de sofrimento. A ACT me ajudaria a entender que eu estava agindo com Compromisso.

Agora me digam… Que raios isso tem a ver com os seus leitores da Academia? Afinal, eles querem algo que os ajude a ter melhores resultados na prática clínica… (essa é a minha mente e sua incansável atividade de julgar meus pensamentos).

Adeus ou até breve? Depende do Contexto

Vocês lembram do nome do nosso canal CogniMundi? Cognição. Cognitiva. Terapia Cognitivo Comportamental e Terapias Contextuais. Essa era a proposta do conteúdo do Canal. Pois bem…

Eu não me sentia mais digno de escrever aqui. As pessoas queriam saber mais da TCC. Existia uma expectativa de que eu falasse disso. O que ninguém do outro lado sabia era que eu já não me sentia mais tão preparado para falar desse assunto, mas também não tinha coragem de assumir.

Mas entre fazer e fugir, eu fugi!

Me distanciei por algum tempo dessa responsabilidade e precisei conviver com a culpa. Afinal eu não estava entregando resultado (eu tinha que…) e abertura pra uma série de pensamentos invasivos que me alertavam que eu estava colocando em cheque a confiança que a Academia e seus membros depositavam em mim.

Enquanto isso a distância entre eu e as coisas importantes pra mim e que dão sentido a minha vida também tornava-se cada vez maior. Eu estava reduzindo minhas possibilidades de me relacionar e compartilhar conhecimento. Coisas que me causam verdadeira satisfação.

Segundo a ACT (pesquise também sobre Brené Brown. Tô encantado por essa mulher!) isso que acabei de fazer diante de vocês foi um exercício de vulnerabilidade e eu me atrevo a dizer que seria uma tarefa humanamente impossível de assumir que me percebo como um Terapeuta ACT sem explicar todo o contexto.

Seguirmos com o canal no formato que temos hoje seria como privar vocês do excelente trabalho que a Terapia Cognitivo Comportamental pode realizar junto de nossos pacientes (e que eu pude atestar na prática). Talvez eu só não seja hoje a pessoa mais indicada para trazer o assunto pra vocês. Acreditem! Existe gente muito mais competente pra falar de TCC (e eu já estou de olho nelas pra encontrar a pessoa mais indicada pra passar a pasta, não é Daiana?)

Gente, mas o que que essa ACT tem de tão bom assim?

Humanidade! E que me perdoem as raízes behavioristas, mas trata-se de uma abordagem que mexe de forma profunda e sensível com questões do próprio Terapeuta. Bom, mas essa não é uma tentativa de vender a ACT como uma cura para frieira, mal olhado ou bicho de pé. É apenas mais uma forma de fazer Psicologia Clínica e que como em qualquer outra abordagem depende significativamente da identificação com o Psicólogo que vai se valer dela.

Sabe como que a ACT apareceu? Eu coordeno uma Especialização em Terapia Cognitivo Comportamental (Na qual eu inclusive espero em breve ministrar disciplinas relacionadas a ACT e Mindfulness) :). Na primeira turma um dos nossos professores estava exercitando práticas e apresentando um jeito novo de fazer Terapia que parecia “melhor” que a TCC. Eu não sabia onde enfiar minha cara.

Eis que surge Érica Faria! A Psicóloga com mais milhas acumuladas buscando conhecimento em todo canto desse país que eu já conheci (e que vocês também vão conhecer em breve) e se diz “desacreditada” da TCC e que estava seguindo outro caminho.

Érica e seu brilho nos olhos me levaram, ou melhor nos ajudou a trazer pra cá Michaele Saban, que com muita habilidade desenvolveu um dos ainda poucos materiais sobre ACT publicados em Português e que eu recomendo fortemente.

Participei do Programa de 8 semanas de práticas em Mindfulness com o Paulo Faleiro do NUMI e de prática em prática, vivência em vivência eu que defendia que era plenamente possível atuar simultaneamente com TCC e ACT me vi cada vez mais identificado com esse jeito ACT de fazer Terapia. Sabe quando você vê uma possibilidade de executar muito do que você acreditava, agora sob respaldo científico? É mais ou menos por aí…

Ter participado do 1° Encontro de Terapia de Aceitação e Compromisso no Rio e ver gente de todo o canto do Brasil cheia dessa curiosidade que também me movia parecia uma bela oportunidade.

Hoje tenho a honra de na minha tímida Beagá receber profissionais excepcionais da ACT como Mônica Valentim e o Dr. Paulo Gomes (vulgo Paulão) para uma formação continuada em ACT que com o perdão da expressão… Tá fazendo o que 5 anos de Faculdade não fizeram.

Como já deve ter dado para perceber, a ACT não só me proporcionou uma série de mudanças, mas também me despertou para a satisfação de partilhar a busca de conhecimentos com pessoas movidas por algo nada milagroso mas com muito sentido.

Um exemplo disso é a querida Simone Nepomuceno que acaba de publicar o primeiro livro infantil escrito à partir de uma linguagem ACT e que promete uma excelente ferramenta para Terapia com os pequenos. A gente vai ter tempo pra falar de cada um dos conceitos que destaquei no texto, mas se você não quiser esperar e estiver disposto a leitura gostosa e de fácil compressão sobre o que é ACT, vão descobrir que é bem mais que um livro infantil.

Sobre se abrir para o novo…

Young man enjoying life, his arms open

Em 2017 estarei de volta em um outro formato onde tenho a sensação de estar indo de encontro ao que representa um valor pra mim. Espero que isso de alguma forma tenha repercussão junto daqueles que como eu, sintam-se com “A coragem de ser imperfeito” #FicaADica #BjosBrenè e se disponham a tentar um novo caminho a partir da perspectiva ACT.

Como que eu ia encerrar esse texto sem falar do Maluco que pensou tudo isso? Não sei vocês, mas conceber um modelo de Terapia onde o cara se expõe em um TED ao explicar a relação que ele desenvolveu com o pânico não parecia ter a menor chance de dar certo. Isso era apenas o ruído dos meus pensamentos.

Ele é Steven Heyes e vocês podem conferir um pouco do que eu estou falando: flexibilidade psicológica.

Obs: Maluco foi só uma estratégia pra esse texto cair nas mãos dele e eu ter a oportunidade de pedir desculpas pessoalmente no Encontro da ACBS. (Vai ter gente do mundo inteiro e vai ter cobertura também. Aguardem!)

ACT é uma Terapia Cognitiva? É uma Terapia Comportamental? É uma Terapia Cognitivo Comportamental? Com todas as letras: não sei! E aprendi com a ACT que eu não preciso ter uma resposta pronta pra tudo. Convido vocês a descobrirem comigo no caminho.

A ACT diria que esse texto foi escrito com base em toda a transformação que venho experienciando depois que encontrei esse novo modo não apenas de trabalhar como Psicólogo, mas de me posicionar no mundo.

Hoje tenho encarado a vida como uma fogueira e me percebo com um pouco menos de medo de me queimar, mas sim desfrutando um pouco mais da luz que emana das chamas que estão ali, no momento presente. A fogueira não deixou de queimar. Fui eu que dei outra função para as chamas. A literatura diria que isso é uma metáfora, um dos principais componentes da ACT.

Mais do que um texto, essa é uma expressão de eu me abrindo para a experiência encantadora de me tornar um Terapeuta ACT.

Isso sou eu trabalhando minha Aceitação.

Autor

Weslley Carneiro

weslleycarneiro@gmail.com

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