Se você é um psicólogo que está prestes a adentrar o mundo das organizações, este artigo pode salvar seu início de carreira.

Eu não estou brincando.

Mais de 5  anos atuando como psicólogo e profissional de RH em multinacionais, me permitiram identificar no comportamento dos novatos – não sem muito sofrimento – um fator bastante interessante:

Eles frequentemente se preocupam com as coisas erradas.

Aliás, deixe-me consertar isso:

Não é que eles se preocupem com as coisas erradas, é que eles se esquecem de dar atenção a um ponto extremamente crítico para sua sobrevivência na empresa, especialmente nos primeiros meses:

O ambiente social.

Novatos muitas vezes acreditam que seu sucesso depende exclusivamente de suas habilidades técnicas e de sua capacidade em “seguir procedimentos”, e se esquecem completamente de que, assim como acontece aqui fora, o mundo das organizações é formado por gente carente, vaidosa, e muitas vezes, invejosa.

Estes iniciantes, embora bem intencionados, geralmente se focam tanto em fazer o “trabalho técnico”, que deixam de observar as condições sociais para  que este trabalho possa acontecer.

Está confuso?

Vamos entender isso melhor agora, falando do personagem principal na história de qualquer empresa. O tal do:

Ser Humano

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Uma das características mais fortes e marcantes de nossa espécie é, sem dúvidas, a sociabilidade, a vontade de pertencer a grupos, de ver e ser visto, de apreciar e ser apreciado.

Não há nada de novo nisso. E se engana quem pensa que a necessidade de “aparecer” é coisa dos tempos modernos.

Lógico que hoje, com a estrutura de comunicação que temos e as ferramentas inéditas de interação social, como o onipresente Facebook, a histeria do  “quero ser importante” tomou proporções inéditas.

Mas a conversa ainda é a mesma dos tempos de Shakespeare: Ver e ser visto, eis a questão.

Não tem jeito, a gente quer falar e ser ouvido, apreciar e ser apreciado. Aliás, há quem afirme que este é o maior anseio de qualquer ser humano desde que nasce: Ser apreciado.

Vou repetir: Todo mundo gosta de ser apreciado. A gente até se penteia por causa disso.

Mas o que esta conversa atravessada tem a ver com sua carreira como um psicólogo iniciante no mundo das organizações?

Tudo.

E a razão é que a mesma carência por afeto e atenção que você vê por aí nas redes sociais, existe dentro das organizações, por mais sérias e produtivas que elas sejam.

Gente é gente em qualquer lugar deste mundo. E onde há gente, acredite, há problemas.

Eu Estava Errado!

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No início de minha carreira, quando tive a oportunidade de entrar em uma multinacional e começar a trabalhar no meio de executivos competentes e bem preparados, imaginei que minha maior dificuldade fosse conseguir dar conta do volume de trabalho, das especificidades técnicas, dos relatórios, dos gráficos, dos números e etc.

Engano meu.

Não que isso fosse fácil. Mas a maior dificuldade e o maior desafio para quem deseja sobreviver e crescer em uma empresa – especialmente quem está chegando – é conseguir transitar entre os egos e desejos daqueles que detém o poder lá dentro.

Então preste muita atenção ao que vou dizer agora:

Para se estabelecer desde o início, mais do que apenas fazer o trabalho, é importante aprender a agir de maneiras muito específicas em relação a algumas pessoas.

Há uma definição muita prática para o que estou querendo expressar aqui:

Você precisa fazer política.

Não que você possa fazer só política e ser incompetente (se bem que existe isso), mas geralmente, dar conta do trabalho técnico é algo infinitamente mais simples do que descobrir como transitar entre as vaidades, as camaradagens e as forças políticas que imperam em uma organização.

A habilidade de construir relacionamentos dentro do ambiente organizacional é tão crucial para seu crescimento quanto a habilidade de executar, tecnicamente, o trabalho para o qual te contrataram.

Isso acontece por que a realidade das empresas costuma ser muito diferente daquilo que ensinam nos livros. Aliás, vá por mim…

Os Livros Não Dão Conta

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É uma enorme ingenuidade pensar que, assim como pregam alguns livros sobre gerenciamento e recursos humanos, dentro de uma empresa todos estarão lindamente organizados como uma orquestra afinada e em busca dos mesmos objetivos.

Com raras exceções, a realidade passa longe disso.

Nos livros eles nos apresentam um conjunto de regras, processos e ferramentas que supostamente deve ser respeitado e aplicado para garantir o bom funcionamento da organização. Mas eles não tratam das questões relacionais que tornam tudo muito, mas muito mais complicado.

Pode anotar aí: Não são as planilhas e processos que vão te enlouquecer ou te fazer perder a cabeça dentro de uma empresa, o que vai te levar à loucura são os caprichos e a falta de bom senso das pessoas.

Ao contrário de uma “linda equipe”, o que você geralmente você vai ver por aí são brigas interdepartamentais, gerentes guerreando por pontos de vista diferentes, pessoas jogando culpa umas nas outras, gente se esquivando de responsabilidades, uns querendo que lhe prestem reverência, outros impacientes por que tem mais de quinze anos de “casa” e querem ser atendidos “diferenciadamente”, aquele que se sente o maioral por que é colega do presidente, enfim, é a famosa:

Fogueira das Vaidades

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Esta expressão ficou muito conhecida após a adaptação para os cinemas do livro de Tom Wolfe, de mesmo nome, que trata justamente sobre o “fogo” da ganância, inveja, vaidade, e várias outras mazelas humanas.

O filme se passa em Wall Street e leva tudo ao extremo, mas acredite, o fogo queima por toda parte. E saber como caminhar neste fogo é tão importante quanto fazer seu trabalho.

Na verdade, caro psicólogo, se não souber caminhar no fogo, você talvez nem consiga fazer o seu trabalho.

Omissão de informação, intriga, pirraça, egoísmo, todos estes são grandes desafios práticos que vão cruzar seu caminho. E você vai precisar de certa sabedoria para lidar com a situação.

Só que, infelizmente para qualquer novato, esta “sabedoria” é algo que não ensinam nas faculdades, e que dificilmente se adquire na teoria. Isto por que ela tem que ser construída com base na dinâmica cotidiana de cada organização.

No dia a dia, na observação, nos erros.

O Que Fazer Então?

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É preciso analisar o ambiente, conhecer a dinâmica e começar a se comportar de maneira a conseguir o máximo de colaboração possível, desde o primeiro dia de trabalho.

Trata-se de buscar construir relacionamentos, relações de “amizade” ou “camaradagem” ou “afinidade” dentro da empresa. (Atenção, não é pra se tornar um puxa-saco, por que isso te fará ser detestado pelos colegas).

O segredo é aplicar um pouco de estratégia ao ambiente social no qual você está inserido.

Sabe aquele diretor de cara fechada que muitas vezes dá uns gritos quando é contrariado? Faça dele seu camarada. E aquela gerente que gosta muito de reverência e de ser apreciada? Pois aprecie-a. Seja disponível, educado, faça favores. Aquela secretária é muito competente mas tem a cara fechada e está sempre irritada? Observe quando ela estiver calma e tente se aproximar para construir uma relação profissional.

O resumo de tudo é: Descubra aqueles que tem poder – sim, uma secretária pode ter muito poder – e achegue-se à eles.

Parece triste, falso, pesado, frio e calculado o que eu disse no parágrafo acima?

Às vezes é. Mas nem sempre.

Por mais poderosos, intransigentes ou insanos que sejam os membros da alta gerência – ou mesmo o pessoal operacional –  no fundo são todos humanos.

E todos querem a mesma coisa:

Ser apreciados, respeitados, ouvidos. (Ok, alguns querem ser reverenciados…).

Portanto, dentro do bom senso e do respeito à sua dignidade, procure descobrir o ponto chave de cada pessoa, se achegar a ela e fazer com que ela perceba em você um aliado que está ali para ajudá-la a resolver problemas, conseguir resultados e, por que não, de vez em quando, apreciá-la um pouco.

Aqui vão, em tópicos, alguns cuidados para você que está começando neste mundo:

  • No início, observe mais e fale menos, conheça o ambiente, não queira aparecer;
  • Faça seu trabalho, mas não dê uma de revolucionário que veio salvar as coisas, vá com calma;
  • Identifique as pessoas que mais podem ajudar – ou atrapalhar – seu trabalho, e procure se aproximar, sem falsidade, e com genuíno desejo de relação profissional;
  • Não confunda colaboração e simpatia com amizade profunda, há relações amistosas que não são exatamente uma amizade;
  • Sempre haverá algum gerente ou diretor de cara fechada, ou grosso. Não se feche para estas pessoas, e cuidado pra não antipatizar antes de conhecer. Dê chances;
  • Ser verdadeiro e espontâneo não significa falar tudo o que pensa, avalie bem as situações;
  • Cuidado para, você mesmo, não acabar “ardendo” na fogueira das vaidades, procure sempre analisar as situações a partir de um ponto de vista equilibrado. (Neutro é impossível)

E por último, sempre que você iniciar o trabalho em uma nova organização, passe pelo menos uns 3 meses observando, entendendo a dinâmica das relações e conhecendo o ambiente, para só depois criticar e propor mudanças. Integre-se primeiro, faça parte, seja aceito, só assim seu trabalho vai realmente fluir e você terá chances de crescimento.

Resumo da história:

Seu trabalho técnico é relevante e necessário, mas fazer um pouco de política dentro da empresa pode ser tão importante para seu crescimento quanto sua capacidade para executar o serviço.

Eu sei, é uma realidade complicada de aceitar, mas tenho que dizer:  É o que temos para o momento.

Até mais.

Autor

Bruno Soalheiro

bruno.soalheiro@academiadopsicologo.com.br

É coach, palestrante, co-fundador da Academia do Psicólogo e autor do livro “Psicólogo Empreendedor, tudo o que você não aprendeu na faculdade”.

Desde 2003, quando se graduou em Psicologia, aborreceu-se com o fato de o curso não enfatizar nenhum aspecto mercadológico da profissão, o que fazia com que a maioria dos psicólogos acabasse tendo que abandonar a carreira ainda no início.

Um belo dia, em 2014, após 11 anos de experiência no mundo das organizações, trabalhando em multinacionais e como consultor, decidiu fazer algo sobre aquele “incômodo” do passado, e começou um projeto que tem como missão transformar a maneira como a sociedade percebe e consome os serviços de Psicologia no Brasil e no mundo.

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