Você sabia que seu corpo guarda sua história?

Que ao tocar numa musculatura tensa pode acessar uma emoção antiga, que mora escondida ali há muito tempo? Você sabia que sua postura corporal expressa o seu “jeitão” de se posicionar na vida?  Que cada organismo nasce com uma forma natural de lidar com o estresse e que, com os traumas vivenciados, vai perdendo essa capacidade flexível de retornar ao seu estado saudável?

Você sabia que, para se defender, o ser humano cria uma forma (física, emocional e comportamental) “engessada” de se colocar no mundo, nas relações? Você sabia que para não sentir dores, para não entrar em contato com o que é muito difícil de encarar, vai deixando de respirar profundamente e perdendo o contato com as emoções?

Que ao engolir o choro constantemente, acaba abrindo mão também da capacidade de gargalhar gostoso?

Eu não sabia até encontrar a Psicologia Corporal no meu caminho.

Em uma aula de Teorias da Personalidade, na qual a professora convidou um Psicólogo Corporal para nos contar sobre essa abordagem. Lembro que foi muito breve e que ele fez uma apresentação teórica e também uma pequena parte prática para percebermos a conexão corpo/emoção.

Então aquilo tudo me soou tão óbvio, me fez tanto sentido, que eu quis mais.

Saber que é nesse corpo que vivemos, que é com ele e através dele que experienciamos a vida, as situações e emoções agradáveis e também as mais difíceis, é o que torna tão importante olhar para ele e aprender a escutar o que nos diz.

Com ele abraçamos quem amamos, com ele caminhamos para onde queremos chegar, com ele sentimos o peito rachar de tanta dor diante da morte de alguém querido, com ele sentimos a vivacidade da alegria, o frio na barriga da ansiedade antes de uma apresentação de trabalho, sentimos o fervor da raiva e a leveza de quando nos encontramos em paz.

Tudo nele, com ele, através dele. Natural que ele reaja a isso também. Natural que ele vá se acostumando com os ombros arcados.

A Psicologia Corporal tem uma visão integrada do ser humano. Existe uma identidade funcional entre corpo e mente. É através do corpo que o homem vivencia e expressa seus pensamentos, emoções, comportamentos, sensações. É com o corpo que percebemos como o mundo nos afeta e nos posicionamos diante dele. Vamos adquirindo posturas corporais juntamente com as nossas posturas comportamentais de ser e estar no mundo.

Nossa história de vida está inscrita em nosso corpo e durante o trabalho de Psicoterapia Corporal ela é acessada através dele – e não somente através do verbal – auxiliando o contato com vivências e emoções reprimidas inconscientes que interferem no livre fluxo de energia e movimento e são causadoras dos sofrimentos e dificuldades atuais.

A Psicologia Corporal tem o olhar e os ouvidos atentos a esse corpo e procura nele a sua capacidade de autorregulação, de pulsação e de movimento para sair de uma forma mecânica de ser e agir. A busca é pelo compromisso com a vida – experimentada em nosso corpo, pela redescoberta da essência e de um caminho para uma existência mais viva e com novas possibilidades.

Wilhelm Reich, médico austríaco, foi o primeiro a se inquietar em seus estudos psicanalíticos e propor uma nova visão do trabalho psicoterapêutico, onde o corpo é percebido como infinita expressão de nossa personalidade.

Ele revelou a importância do somático na estrutura emocional do indivíduo: somos o nosso corpo.

Depois dele surgiram outros seguidores e inovadores dessa visão unificada do ser humano, como Alexander Lowen com a Bioenergética, Gerda Boyesen com a Biodinâmica, David Boadella com a Biossíntese e Stanley Keleman com a Psicologia Formativa.

A mais feminina das psicologias corporais

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O foco aqui será na Psicologia Biodinâmica – a mais feminina das Psicologias Corporais.

Foi desenvolvida na década de 1960 por Gerda Boyesen, Fisioterapeuta e Psicóloga norueguesa (1922/ 2005- 83 a.), Gerda fez formação em Vegetoterapia com Ola Raknes (discípulo direto de Wilhelm Reich) e desenvolveu um método próprio de tratar a neurose –  um trabalho em que aliou a experiência psicoterapêutica dos conceitos reichianos a técnicas de massagens inspiradas na fisioterapeuta Aadel Bülow-Hansen, com quem trabalhou.

Todos os conceitos têm a marca da experiência pessoal de Gerda.

Uma linha de Psicoterapia Corporal Neorreichiana suave e maternal, que se propõe a trabalhar o corpo dentro do processo analítico:  utiliza o trabalho verbal com formas de intervenção corporal como exercícios e massagem. Ela traz essa conexão psicossomática de que temos um psiquismo que habita o corpo.

Gerda formulou as bases e princípios técnicos e teóricos e a partir disso vem se desenvolvendo em vários lugares do mundo, com vários profissionais, evoluindo e ganhando novas perspectivas

Na teoria Biodinâmica os processos “da mente” (a dinâmica psíquica) e “do corpo” (tônus muscular) são vistos como aspectos integrados, em interfuncionamento de um único desenvolvimento biodinâmico, ou seja, a interrelação dos processos vegetativos com os aspectos psicológicos.

Toda emoção, todo choque, toda frustração tem uma consequência fisiológica direta na pessoa, assim como psicológica.

Quando as emoções repetidamente não são expressas, e os conflitos não resolvidos, as consequências se tornam crônicas – é quando há o encouraçamento, a alteração do tônus muscular. A tensão (estresse) se acumula, camada após camada, até o desenvolvimento do sintoma neurótico – em alguns casos principalmente somático, em outros, principalmente comportamental (dinâmica psíquica).

A neurose é um desenvolvimento tanto fisiológico quanto psicológico: “uma pessoa literalmente incorpora sua neurose”.

A base do trabalho em Biodinâmica é o princípio de que todas as vivências ficam registradas no corpo e as técnicas corporais podem ser usadas para acessar e desbloquear mais facilmente os conteúdos inconscientes que provocam a estagnação do fluxo de energia e os sintomas atuais, promovendo a autorregulação do organismo.

A autorregulação é uma sabedoria natural do organismo, um princípio de autocura, que deve ser resgatado dentro do processo psicoterapêutico.

É a capacidade inerente e natural que o organismo saudável tem de manter e buscar a homeostase, o equilíbrio, o poder de exprimir, resolver e digerir até mesmo violentos choques emocionais, contanto que tenha as condições necessárias de paz e segurança. A Biodinâmica procura restaurar esta perda ou diminuição da capacidade de autorregulação, e procura alcançar o “núcleo vivo”, o âmago da pessoa, estimulando e encorajando sua expansão.

Desde muito cedo e no decorrer da vida, as repressões e os conflitos externos e internos vão diminuindo a capacidade natural de autorregulação.

E assim, o corpo desaprende como relaxar.

Se o corpo estiver contraído, tenso, a pessoa fica desconfortável dentro dele. Acontece que, em geral, as pessoas vivem muito mais em estado de contração e de tensão e existe pouco espaço pro relaxamento. Segundo Gerda, os conflitos e ansiedades produzem tensões internas que inibem a espontaneidade e resultam em uma tensão muscular crônica ou em uma flacidez muscular.

Então, vão surgindo as doenças psicossomáticas, os quadros de estresse.

Formas de trabalho na Psicodinâmica

Young Woman Doing Yoga Outdoors On Grass

A massagem é uma ferramenta bastante utilizada. Gerda e outros seguidores desenvolveram inúmeras formas inovadoras de massagem que muito contribuem para um diálogo não verbal com a pessoa que está sendo atendida.

Se a pessoa está tensa não adianta falar para ela relaxar, ela vai continuar tensa. O toque faz esse convite.

Ele vai se moldar à necessidade da pessoa naquele momento para poder alcançar maior bem estar, maior vitalidade. A massagem biodinâmica é baseada na dupla função do intestino – digerir não somente os alimentos mas também o estresse do organismo. Gerda trouxe o uso do estetoscópio sobre o ventre para guiar os toques da massagem pelos sons produzidos pelos movimentos peristálticos – que chamou de psicoperistálticos – a fim de limpar fisiologicamente os ciclos emocionais não totalmente descarregados pelo organismo.

O objetivo da Massagem Biodinâmica não é apenas o relaxamento, mas a retomada da dinâmica do organismo.

A Biodinâmica propicia a expressão emocional e mudanças de postura, pois relaxa os músculos hipertônicos (rígidos) ou traz tonicidade aos hipotônicos (flácidos), provocando mudanças corporais e emocionais. Assim, possibilita a descoberta de uma nova postura diante da vida. Há um cuidado em trabalhar com a harmonização da energia liberada durante a expressão emocional.

Apresenta um respeito à singularidade do ser humano e, nesse sentido, dá pouca ênfase a classificações, buscando perceber cada pessoa como única.

Conceitos como “amizade com a resistência” e o respeito ao tempo do paciente são fundamentais.

O enfoque é no processo que decorre com ele, portanto nunca é rígido. O papel do psicoterapeuta dessa linha, muitas vezes, é o de “parteiro”, que fica ali: presente e acompanhando, pronto para receber o que estiver maduro para se expressar. Não é ele quem determina o ritmo do processo.

Ele facilita o fluxo da energia de forma não invasiva, pois tem conhecimento que as couraças devem ser flexibilizadas, dissolvidas e não quebradas.

É um espaço aberto, podendo adaptar-se a sessão ao que é mais adequado para o paciente, dentro dos limites do espaço terapêutico. É um trabalho baseado na relação terapêutica, ou seja, no vínculo entre o paciente e o psicoterapeuta.

O ambiente seguro e acolhedor são essenciais para desenvolver seu núcleo saudável, abrir mão de velhos padrões de comportamentos e experimentar novas posturas no mundo que lhe permitam viver com menos sofrimento, mais prazer e vitalidade – para que se possa resgatar a essência – chamada por Gerda de Personalidade Primária.

Gostaram de conhecer um pouquinho da Psicologia Biodinâmica?

Espero que sim e que tenham ficado curiosos para conhecer mais dessa abordagem pela qual sou apaixonada.

Autor

Luciana Calazans

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