A psicologia é conhecida por ser uma área de conhecimento em que é possível se falar sobre o que normalmente não se fala, o que é tabu. Nos mais de cem anos que a Psicologia existe, autores se desbravaram em expor temas nem um pouco tradicionais e que eram alvos de controvérsias: sexo, sonhos, corpo, inconsciente, desejo, loucura e religião.

Religião?

Se você estranhou essa palavra, provavelmente faz parte da maioria de estudantes ou profissionais de Psicologia que sequer passou perto desse tema na universidade. Estudamos Filosofia, Sociologia, psicologia clínica, institucional, desenvolvimento, psicopatologia, mas, com pouquíssimas exceções, ignoramos a Religião.

Apesar de todas as áreas citadas terem estudos acerca de religião, esse tema é deixado de lado – como um tabu! – e fazendo com que nós psicólogos mal saibamos sobre esse assunto.

Porém, a população brasileira, segundo o censo do IBGE de 2010, tem 92% da população vinculada a uma religião.

Então, como deixamos esse tema ser um tabu?

Um recente estudo internacional, sediado nos Estados Unidos da América, aponta que 74% dos brasileiros consideram a religião como muito importante para sua vida, colocando o Brasil como um país acima da média no quesito religiosidade. Se a nossa profissão nasceu para abrir o verbo de temas sobre nossa subjetividade, cadê a religião?

A sorte é que nossa profissão, cheia de ousadia, tem um histórico de estudos acerca da religião. Mesmo que eles hoje não sejam tão comuns em nossos cursos, são cruciais para entendermos o que a Psicologia está pensando desse assunto.

Grandes autores da psicologia estudaram a religião

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Em nossos precursores não está nada mais nada menos que o pai da Psicologia: W. Wundt (1832 – 1920)!

Ele, que se dedicou em toda sua vida na produção de uma Psicologia experimental e científica, sabia que esse método só faria sentido dentro do contexto que vivia. Por isso, ele realizou uma enorme obra de dez volumes chamada Psicologia dos Povos, a qual expõe a dificuldade do método experimental ao analisar questões muito determinadas por condições históricas e sociais, como a linguagem, os costumes e a religião.

E, sobre a Religião, Wundt tinha grande interesse. Pesquisou sobre os processos emocionais envolvidos com a religião como o medo, além de fases do desenvolvimento religioso de uma população.

Outro conhecidíssimo autor da Psicologia que se posicionou frente ao tema da religião foi o próprio Sigmund Freud (1856-1939).

Em sua obra temos livros dedicados somente a religião, apesar de já citar o tema desde suas primeiras cartas ao seu amigo Fliess em 1887. O primeiro destes livros é o Totem e Tabu, de 1912, a qual desenvolve, como Wundt, uma evolução da cultura religiosa e faz comparação entre os rituais de um obsessivo ao tabu de uma religião.

Depois disso, continuou a desenvolver sua teoria acerca da religião em O Futuro de uma ilusão (1927), O mal estar na civilização (1930), Novas contribuições à psicanálise (1933) e até mesmo no último livro de sua vida, a qual dedicou somente ao tema: Moisés e o monoteísmo (1939).

Paralelamente a Freud, outros psiquiatras que estudaram com Charnot desenvolveram pesquisas sobre religião e patologia. P. Janet (1859 – 1947) fez, por exemplo, um estudo clínico de uma paciente que possuía experiências místicas extraordinárias e comparou a casos de neurose obsessiva-compulsiva, assim como outro psiquiatra, E. Murisier (1867 – 1903).

Outro autor que fez uma análise profunda desse tema foi H. Delacroix (1873 – 1937), que fez uma revisão bibliográfica de grandes místicos cristãos, como Santa Teresa de Ávila, a fim de concluir se tais personalidades viveram experienciais religiosas saudáveis ou patológicas.

Carl Gustav Jung (1857 – 1961) foi também um entusiasta em estudar a biografia de personalidades religiosas da história para elaborar seus arquétipos. Segundo o autor, os arquétipos são estruturas de personalidade que perpassam diversas culturas – como o da Grande Mãe, muitas vezes representada por Maria, mãe de Jesus na religião cristã.

Dessa forma, a religião era crucial para se entender a personalidade humana, pois ela é produtora de símbolos e significados.

Tal teoria fica brilhantemente expressa em uma das suas obras mais conhecidas, chamada “O Homem e seus símbolos”. Jung também é conhecido por ter ido por todo mundo pesquisando culturas e religiões, além de produzir de uma ampla produção sobre o tema num total de 12 livros (publicados em: 1939, 1941, 1942,1944, 1945, 1946, 1948, 1951, 1952, 1958, 1960, 1967)!

Apesar do enorme aparto teórico de Jung, seu foco final era a produção da psicologia profunda e não de uma psicologia da religião.

O chamado pai da Psicologia da Religião é um pesquisador norte-americano nascido em Nova York em 1842 chamado W. James. Este autor, que criou uma escola voltada a pesquisa da religião, escreveu em 1902 um pilar na bibliografia desse tema que é o Variedades da experiência religiosa.

O grupo em que trabalhava observava experiências místicas e faziam descrição e avaliação destas. O seu foco de análise era o afeto e as crenças que estas experiências produziam no ser humano, as quais o moviam em suas necessidades mais íntimas.

Poderíamos citar muitos outros grandes nomes da história de nossa profissão que, em algum momento, achou importante tangenciar o tema da religião para falar do ser humano, tais como Skinner (1904 – 1990), A. H. Maslow (1908 – 1970), J. Piaget (1896 – 1980), E. Fromm (1900 – 1980), os quais perceberam que para falar do ser humano, de suas carências, de sua constituição e de seus desejos haviam que passar por esse assunto e, posteriormente, escreveram sobre isso.

Assim, faz parte da nossa história profissional as pesquisas sobre a religião. 

Se desejamos produzir cada vez mais conhecimento sobre o que é importante para nossa população, devemos nos atentar para aquilo que vem sendo produzido e extrair para a prática profissional. Assim, convidamos a todos de nossa profissão a entrar nesse tema que fingimos não existir, mas que certamente estará muito presente em nosso trabalho.

Referências:

AVILA, Antonio. A psicologia da religião no contexto da história da psicologia. In: AVILA, Antonio. Para conhecer a Psicologia da Religião. São Paulo: Edições Loyola, 2007. p. 21-64.

TEIXEIRA, Faustino. O censo de 2010 e as religiões no Brasil. In: TEIXEIRA, Faustino; MENEZES, Renata (Org.). Religiões em Movimento: O censo de 2010. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 17-35.

Rebecca Maciel e Rafael Lins
Como eu lido quando um paciente fala da sua fé na terapia? E quando minha religião é diferente do meu paciente? O que os principais autores da psicologia falam sobre o assunto? Qual a posição do CFP acerca dessa questão? Se você ouve “Psicologia e Religião” e já imagina que vai dar treta, deixe que os psicólogos Rafael Lins e Rebecca Maciel esclareçam de forma ética e laica as polêmicas que rondam esse tema!
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3 Comentários

  • Aguiar disse:

    Muito bem embasado! Adorei!

  • everaldo disse:

    to lendo teresa de ávila e gostaria de saber se as experiencias ‘misticas de teresa ‘ se encaixam nos arquetipos junguianos, uma vez que o proprio jung era cercado pelos personagens de suas fantasias ( insights ) . Jung tbm tinha um ar mistico e suas experiencias as vezes nos lembram alguns misticos religiosos. Que nos diga o LIVRO VERMELHO. Mais queria sua opnião sobre teresa de áquila, sera´que jung classificaria teresa como dona de uma personalidade patlógica ou teria alguma autenticidade!!!

  • Pedro disse:

    A inconsciência ou discernimento ou cegueira cósmica pode produzir algo pitoresco, dramático e autofágico. Quando o homem rompe a fronteira humilde da inteligência do silêncio, em matéria de religião por exemplo e dá uma de sabichão ele se autotransmuta em revólver na mão de macaco malabarista: sai tiro pra todo lado, inclusive contra si próprio…:)

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