O modelo das ciências naturais vem tentando, desde um bom tempo, apresentar perspectivas e ferramentas capazes de explicar uma série de acontecimentos e processos no mundo. E como é de esperar, esta lógica quer explicar e intervir também no comportamento humano. E sabe-se que isso é possível.

Mas até onde é possível? E mais importante: Até onde isso é desejável?

Neste emocionante texto, o Psiquiatra e Psicoterapeuta Existencial Irvin Yalom  fala com extrema sensibilidade sobre o papel do terapeuta como alguém que, eventualmente,  é tão humano e frágil quanto o paciente, e sugere que é justamente desta humanidade que pode surgir a mais valiosa contribuição de nosso trabalho.

Fiquem com ele.

Bruno Soalheiro.


Quando eu era um jovem estudante de psicologia tentando encontrar meu caminho, o livro mais útil que li foi “Neurose e Crescimento Humano” de Karen Horney. E o conceito mais útil que encontrei nesse livro foi a noção de que o ser humano tem uma propensão inata para a auto-realização.

Horney acreditava que se os obstáculos fossem removidos, o indivíduo conseguiria se desenvolver em um adulto maduro, plenamente realizado, assim como uma semente se desenvolverá em um carvalho.

“Assim como uma semente se desenvolverá em um carvalho.”

Que imagem maravilhosamente libertadora e elucidativa! Isto mudou para sempre minha abordagem com relação à psicoterapia, me oferecendo uma nova visão de meu trabalho: minha tarefa era remover os obstáculos que bloqueiam o caminho do meu paciente.

Eu não tinha que fazer todo o trabalho; eu não precisava incitar o paciente com o desejo de crescer, com curiosidade, vontade, entusiasmo pela vida, carinho, lealdade, ou qualquer uma das muitas características que nos tornam plenamente humanos.

Não, o que eu tinha que fazer era identificar e remover os obstáculos. O resto se seguiria automaticamente, alimentado pelas forças de auto-realização dentro do próprio paciente.

Remova os Obstáculos para o Crescimento

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Lembro-me de uma jovem viúva com, como ela dizia, um “coração fracassado” –  uma incapacidade para amar novamente. Parecia difícil abordar a incapacidade de amar. Eu não sabia como fazer isso.

Mas me dedicar a identificar e desarraigar seus muitos bloqueios para amar? Eu poderia fazer isso.

Logo, nas sessões, aprendi que o amor lhe parecia traiçoeiro. Amar outro seria trair seu marido morto; era como colocar os últimos pregos no caixão do marido. Amar outro tão profundamente como ela amou seu marido (e ela não aceitaria nada menos) significava que seu amor por seu marido tinha sido, de alguma forma, insuficiente ou imperfeito. Amar outro seria autodestrutivo porque a perda e a dor lancinante da perda eram inevitáveis.

Voltar a amar parecia irresponsável: ela era maligna e amaldiçoada, e seu beijo era o beijo da morte.

Nós trabalhamos duro por muito tempo para identificar todos esses obstáculos para ela amar outro homem. Por meses nós lutamos com cada obstáculo irracional de cada vez.

Mas, uma vez que foi feito, os processos internos da paciente assumiram: ela conheceu um homem, se apaixonou e casou-se novamente.

Eu não tive que ensiná-la a procurar, se doar, amar, estimar. Eu não saberia como fazer isso.

Evite o Diagnóstico (exceto para as companhias de seguros)

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Hoje em dia, infelizmente, os estudantes de psicologia estão expostos a muita ênfase no diagnóstico. Administradores de planos de saúde exigem que os terapeutas cheguem rapidamente a um diagnóstico preciso e prossigam com uma terapia rápida e focada que corresponda a esse diagnóstico específico.

Parece bom. Parece lógico e eficiente. Mas tem muito pouco a ver com a realidade.

Em vez disso, representa uma tentativa ilusória de legislar precisão científica na pessoa quando tal coisa não é nem possível nem desejável.

Embora o diagnóstico seja, sem dúvida, crucial nas considerações de tratamento para muitas doenças graves com um substrato biológico (por exemplo: esquizofrenia, transtornos bipolares, grandes transtornos afetivos, epilepsia do lobo temporal, toxicidade de drogas, doença orgânica ou cerebral por causa de toxinas, causas degenerativas ou agentes infecciosos) o diagnóstico é frequentemente contraproducente na psicoterapia cotidiana com pacientes menos severamente prejudicados.

Por quê?

Por que de certa forma, a psicoterapia consiste em um processo de desdobramento gradual em que o terapeuta tenta conhecer o paciente tanto quanto possível.

Um diagnóstico limita a visão e diminui a capacidade de se relacionar com os outros como uma pessoa.

Uma vez que fazemos um diagnóstico, temos a tendência de seletivamente observar aspectos do paciente que não se encaixam nesse diagnóstico particular, e consequentemente observamos em excesso as características sutis que parecem confirmar o diagnóstico inicial.

Além do mais, um diagnóstico pode agir como uma profecia autorrealizável.

Referir-se a um paciente como “borderline” ou “histérico” ​​pode servir para estimular e perpetuar essas mesmas características. E lembre-se, também, da baixa confiabilidade da categoria de transtornos de personalidade do DSM.

E qual terapeuta não fica chocado ao confrontar a facilidade de um “rótulo” dado pelo DSM-IV na primeira anamnese, com a realidade complexa e multifacetada que encontra após várias sessões, quando ele realmente conhece o indivíduo?

Muitas vezes as leituras simplesmente “não batem”.

Isto não é um tipo estranho de ciência?

Um colega meu leva esta questão aos seus residentes de psiquiatria com a seguinte pergunta:

“Se você estivesse fazendo psicoterapia pessoal ou considerando isso, qual diagnóstico do DSM-IV você acha que seu terapeuta poderia justificadamente usar para descrever alguém tão complicado como você?” (C. P. Rosenbaum, comunicação pessoal, novembro de 2000)

No desenrolar terapêutico devemos percorrer uma linha tênue entre alguma, mas não muita, objetividade; se levamos o sistema de diagnóstico DSM muito a sério, vamos acabar eliminando a espontaneidade e humanidade que são sim, características de um bom processo.

Lembre-se de que os clínicos envolvidos na formulação de sistemas de diagnósticos anteriores, agora descartados, eram competentes, orgulhosos, e tão confiantes quanto os atuais membros dos comitês do DSM. Sem dúvida, chegará o dia em que o formato de “menu de restaurante chinês” do DSM-IV parecerá absurdo para os profissionais de saúde mental.

Terapeuta e Paciente como “Companheiros de Viagem”

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André Malraux, o romancista francês, descreveu um padre do interior que tinha ouvido confissões durante muitas décadas e resumiu o que havia aprendido sobre a natureza humana desta forma: “Primeiro de tudo, as pessoas são muito mais infelizes do que se pensa … e não existe essa coisa de ser uma pessoa adulta e totalmente resolvida”.

Todos – e isso inclui os terapeutas, bem como pacientes – estão destinados a experimentar não apenas a alegria da vida, mas também a sua inevitável escuridão: desilusão, envelhecimento, doença, isolamento, perda, falta de sentido, escolhas dolorosas e morte.

Ninguém coloca essas coisas de forma mais clara e mais fria do que o filósofo alemão Arthur Schopenhauer:

“No início da juventude, quando contemplamos nossa vida vindoura, somos como crianças num teatro antes de a cortina subir, sentados lá animados e esperando ansiosamente, pelo início da peça. É uma benção que não saibamos o que vai realmente acontecer. Pudéssemos prevê-lo, haveria ocasiões em que as crianças poderiam parecer prisioneiros condenados, não à morte, mas à vida, e ainda inteiramente inconscientes de qual o significado de sua sentença.”

Ou ainda:

“Somos como cordeiros no campo, fazendo travessuras sob o olhar do açougueiro, que escolhe e separa um e depois outro para ser sua presa. Também é assim que, nos nossos dias bons, somos todos inconscientes do mal que o Destino pode ter reservado para nós — doença, pobreza, mutilação, perda da visão ou da razão. ”

Embora a concepção de Schopenhauer seja fortemente colorida por sua própria infelicidade, ainda é difícil negar o desespero inerente na vida de cada indivíduo autoconsciente.

Minha esposa e eu às vezes nos divertimos planejando jantares imaginários para grupos de pessoas que partilham semelhante propensões, por exemplo, uma festa para os monopolistas, ou narcisistas fervorosos, ou passivo-agressivos astutos que conhecemos ou, pelo contrário, uma festa “feliz” para a qual convidamos apenas as pessoas verdadeiramente felizes que encontramos.

Embora não tenhamos encontrado nenhum problema preenchendo todos os tipos de tabelas extravagantes para cada um destes tipos, nunca fui capaz de preencher uma tabela completa para nossa festa de “pessoas felizes”.

Cada vez que nós identificamos algumas pessoas supostamente felizes e as colocamos em uma lista de espera – enquanto continuamos nossa busca para completar a tabela – vemos que um ou outro dos nossos convidados felizes é eventualmente acometido por alguma grande adversidade da vida – frequentemente uma doença grave ou a de um filho ou cônjuge.

Esta visão trágica, mas realista da vida, há muito tempo tem influenciado minha relação com aqueles que buscam minha ajuda.

Embora existam muitas frases para o relacionamento terapêutico (paciente/terapeuta, cliente/conselheiro, analisando/analista, cliente/facilitador, e o mais recente e, de longe, o mais repugnante – usuário/provedor), nenhuma destas frases transmitem com precisão meu sentido da relação terapêutica.

Em vez disso eu prefiro pensar em meus pacientes e eu como companheiros de viagem, um termo que abole as distinções entre “eles” (os aflitos) e “nós” (os curandeiros).

Durante meu treinamento, fui muitas vezes exposto à ideia do “Terapeuta completamente resolvido” mas na medida em que avancei na vida e formei relações íntimas com uma boa parte de meus colegas terapeutas, conheci as figuras mais importantes no campo, fui chamado para prestar ajuda aos meus antigos terapeutas e professores, e me tornei um professor e um ancião, eu vim a perceber a natureza mítica desta ideia.

Estamos todos no mesmo barco, e não há terapeuta e nenhuma pessoa imune às tragédias inerentes à existência.

Cada um com sua Dor

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Um de meus contos favoritos de cura, encontrado no romance “O Jogo das Contas de Vidro” de Hermann Hesse, envolve Joseph e Dion, dois renomados curandeiros que viveram nos tempos bíblicos.

Embora ambos fossem altamente eficazes, eles trabalhavam de maneiras diferentes.

O curandeiro mais jovem, Joseph, curava através de uma escuta silenciosa, inspirada. Os peregrinos confiavam em Joseph. O sofrimento e ansiedade falados em seus ouvidos desapareciam como água na areia do deserto e os penitentes deixavam sua presença vazios e calmos.

Por outro lado, Dion, o curandeiro mais velho, ativamente confrontava aqueles que buscavam sua ajuda. Ele adivinhava seus pecados não confessados. Ele era um grande juiz, punidor, repreendedor, e retificador, e curava através da intervenção ativa.

Tratava os penitentes como crianças, dava conselhos, punia com a determinação da penitência, ordenava peregrinações e casamentos, e obrigava os inimigos a fazer as pazes.

Os dois curandeiros nunca haviam se conhecido, e trabalharam como rivais durante muitos anos, até que Joseph ficou espiritualmente doente, caiu em desespero obscuro, e foi tomado por ideias de autodestruição. Incapaz de curar a si mesmo com seus próprios métodos terapêuticos, ele partiu em uma viagem ao sul para buscar ajuda de Dion.

Em sua peregrinação, Joseph descansou uma noite num oásis, onde caiu em uma conversa com um viajante mais velho.

Quando Joseph descreveu a finalidade e destino de sua peregrinação, o viajante se ofereceu como um guia para auxiliar na busca por Dion. Mas mais tarde, no meio de sua longa jornada juntos, o velho viajante, supostamente um guia, revelou sua identidade a Joseph.

Surpresa: ele próprio era Dion, o homem que Joseph procurava.

Sem hesitar, Dion convidou seu jovem e desesperado rival para sua casa, onde viveram e trabalharam juntos por muitos anos.

Dion primeiro pediu a Joseph para ser um servo. Mais tarde, ele o promoveu a estudante e, finalmente, a colega.

Anos depois, Dion caiu doente e no seu leito de morte,  e então chamou seu jovem colega a fim de fazer uma confissão. Ele falou da terrível doença de Joseph, anos antes, e da grande coincidência que fora eles terem se encontrado naquele oásis.

De fato pareceu um milagre, o homem que Joseph encontrara “por acaso” na jornada, era o próprio homem que ele havia ido buscar.

Agora, que Dion estava morrendo, tinha chegado a hora de revelar a verdade.

Dion confessou a Joseph que, aquilo que parecera obra do acaso, na verdade nada tinha de coincidência.

A verdade é que ele, Dion, também se sentia vazio, espiritualmente morto e, incapaz de ajudar a si mesmo, e por isso tinha partido em uma viagem para procurar ajuda. Na mesma noite em que eles haviam se conhecido no oásis, ele estava em uma peregrinação, uma busca a um curandeiro famoso.

O nome deste curandeiro era Joseph.

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Bem, este conto de Hesse sempre me comoveu de forma sobrenatural.

Ele me parece uma declaração profundamente iluminada sobre dar e receber ajuda, sobre honestidade e duplicidade, e sobre a relação entre terapeuta e paciente.

Os dois homens receberam ajuda poderosa, mas de maneiras muito diferentes. O curandeiro mais jovem foi nutrido, acalentado, instruído, orientado e tratado como filho. O curandeiro mais velho, por outro lado, foi ajudado por meio do serviço aos outros, através da obtenção de um discípulo de quem recebeu amor filial, respeito e alívio para o seu isolamento.

Mas agora, reconsiderando a história, eu questiono se estes dois curandeiros feridos não poderiam ter sido ainda mais úteis um ao outro.

Talvez eles tenham perdido a oportunidade de algo mais profundo, mais autêntico, mais poderosamente transformador.

Talvez a verdadeira terapia ocorreu na cena do leito de morte, quando eles passaram para a honestidade com a revelação de que eram companheiros de viagem, simplesmente humanos, demasiado humanos.

Os vinte anos de segredo sobre esta verdade, por mais que tivessem alguma utilidade, podem ter obstruído e impedido um tipo mais profundo de ajuda.

O que poderia ter acontecido se a confissão no leito de morte de Dion tivesse ocorrido vinte anos antes?

O que teria acontecido se curandeiro e “paciente” tivessem se unido para enfrentar as perguntas que não têm respostas?

Tudo isso ecoa nas cartas de Rilke a um jovem poeta, nas quais ele aconselha: “Tenha paciência com tudo por resolver e tente amar as perguntas em si.”

Eu acrescentaria: “Tente amar também quem faz as perguntas.”

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**Este artigo foi traduzido e publicado com autorização do site original, desde que fosse citada a fonte, a versão original pode ser vista aqui!

Autor

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