A pressão por resultados e por treinar durante todo o ano com vigor e intensidade aumentou significativamente nos últimos anos devido, em grande parte, as tremendas compensações financeiras, publicidade e ao status alcançado por técnicos e atletas de sucesso.

Em épocas passadas, havia temporadas de jogos e férias nos diferentes esportes, mas hoje em dia uma temporada tende a emendar na seguinte, deixando pouco tempo para um descanso prolongado.

Em alguns casos, mesmo fora de temporada, os atletas continuam seus trabalhos de musculação ou preparação física para continuarem com a mesma forma anterior ou melhorarem ainda mais o rendimento da temporada anterior. Por isso mesmo, não conseguimos distinguir o que é férias e o que é temporada com um atleta de alto rendimento.

Para os mais jovens, a ideia é que quanto mais cedo os treinamentos começarem, melhor, pois ao se fazer o treinamento o ano inteiro haverá mais chances de bolsas de estudos ou a inserção nos esportes de alto rendimento.

Mas para todo este foco há um preço a se pagar e, por vezes, este preço chega ao que chamamos de burnout esportivo.

E olha que não estamos nos referindo apenas aos atletas, mas também aos técnicos e demais profissionais da saúde envolvidos no processo. Os praticantes de exercícios, em sua busca de sentirem-se e parecerem melhor, às vezes vão longe demais, treinam excessivamente e chegam ao burnout.

O treinamento excessivo e o burnout esportivo tornaram-se problemas significativos no mundo dos esportes, acarretando em desistência e até aposentadoria precoce, ou seja, um desperdício de talentos. Por isso, técnicos, instrutores e profissionais administrativos precisam entender melhor os sintomas e as causas de burnout e aprenderem estratégias eficazes para reduzir a possibilidade de sua aparição.

Veremos neste texto a definição do que é treinamento excessivo e burnout, as causas e sintomas advindos destas práticas e por fim o seu tratamento.

Boa Leitura!

O que é treinamento excessivo

O treinamento periódico é a estratégia aberta de colocar os atletas a altas cargas de treinamento e de grande quantidade, seguidas por uma carga de treinamento mais suave, que tem por objetivo dar a oportunidade do organismo repousar. Isto é frequente nos esportes de alto rendimento com alterações da escolha de cada equipe técnica.

O objetivo deste tipo de treinamento é preparar e condicionar os atletas de alto rendimento para que eles atinjam todo seu potencial em uma determinada época da competição para que depois os técnicos possam relaxar seus atletas a fim de preservá-los para o restante da temporada.

Para que isto aconteça, deve existir um grande alinhamento de toda comissão técnica para adaptar o atleta aos efeitos da competição e eliminar os efeitos negativos advindos desta carga, como a estafa e as lesões.

O treinamento se torna excessivo quando há um ciclo curto de treinamento durante o qual os atletas se expõem a cargas de treinamento excessivas próximas da capacidade máxima suportada.

A sobrecarga é uma prática comum no treinamento de atletas, temos como exemplo os competidores de tênis que precisam treinar geralmente o dobro do tempo que uma partida poderia render em termos de horas. Ele nunca treinará a mesma quantidade de horas de uma partida comum, pois devemos sempre considerar as dificuldades e o preparo físico do adversário.

De acordo com uma visão de fisiologia do exercício, há uma intencionalidade na carga que sobrecarrega os atletas e os faz experimentarem volumes altos de treinamento. Depois do repouso e de sua recuperação, a ideia é que o corpo se adapte a sobrecarga e se torne mais forte ou mais condicionado e por isso, o rendimento também aumenta significativamente.

Porém, devemos considerar totalmente as variáveis individuais e concordar que este esforço além do previsto para o corpo, geralmente não é perfeito. Por estas razões, se o volume de treinamento for grande ou se o atleta for afetado por falta de repouso, outros estressores físicos ou psicológicos, o treinamento além da conta interfere negativamente no rendimento esportivo.

O treinamento excessivo deve ser entendido como negativo, pois há uma sobrecarga (geralmente física) além dos limites do corpo que não dispõe de um repouso adequado, resultando em piora do desempenho e incapacidade de treinar em um nível normal.

O processo de treinamento excessivo pode ser positivo para um atleta ou negativo para outro atleta considerando fatores individuais como psicológicos, fisiológicos, condicionamento físico ou histórico médico. Por isso mesmo o seu desenvolvimento ou impedimento são considerados ao longo do tempo e pela variável da adaptação.

O resultado direto deste treinamento excessivo inadequado acontece no que chamamos de estafa.

A estafa é a consequência final de uma progressiva deterioração, na qual o atleta não consegue manter um regime de treinamento padronizado e não pode mais alcançar resultados de desempenho otimizado como antes, mesmo que diminua-se o treinamento excessivo por uma carga abaixo do que ele estava mal adaptado.

Os principais sintomas psicológicos voltados a estafa são transtornos do humor e percepção de aumento do esforço durante os exercícios.

O que é burnout esportivo

O burnout esportivo é aquele que recebe mais atenção em termos de relatos de atletas. O burnout é uma resposta psicofisiológica de esgotamento exibida como resultado de esforços frequentes, às vezes extremos e geralmente ineficazes de satisfazer demandas excessivas de treinamento e competição.

Em termos mentais, o burnout mostra um afastamento psicológico, emocional e às vezes físico de uma atividade que antes trazia prazer, por uma resposta ao estresse excessivo ou à insatisfação acumulada com o passar do tempo.

Por isso mesmo é comum encontrarmos indivíduos com esgotamento físico e emocional que se transforma em perda de energia vital, perda de interesse pela atividade e de confiança nas pessoas que estão ao seu redor no ambiente esportivo.

Por vezes há sentimentos enraizados que denotam baixa realização pessoal, autoestima rebaixada, fracasso e depressão que são refletidos nos resultados esportivos abaixo do comum. Por fim, consequências graves como a despersonalização e desvalorização são vistos como comportamento impessoal e insensível do atleta e até mesmo falta de preocupação com o esporte e com aquilo que lhes parece importante no contexto esportivo.

Uma vez que uma pessoa experimente o burnout, é inevitável o desejo de se afastar do ambiente que gera o estresse e em alguns momentos o seu afastamento é quase inevitável.

Há muitas razões para que os atletas desistam de participar em esportes, e o burnout é apenas uma delas.

De fato, parece que poucos atletas e técnicos desistem complemente do esporte apenas por causa do burnout, embora muitas vezes apresentam muitas das características deste.

Apesar de se sentirem exaustos e esgotados, os atletas continuam no esporte pela compensação financeira, status, por pressões e expectativas dos pais ou técnicos. É comum que essa pessoa só deixe o esporte quando considerar que o custo de suas consequências é maior do que o cobrado por outras atividades que exerce.

Razões que levam o atleta ao treinamento excessivo e burnout

Devemos compreender agora quais fatores específicos causam ou resultam nestes níveis de esgotamento ou falta de resultados esportivos expressivos em atletas de alto rendimento.

Os relatos em sua maioria são empíricos, principalmente aqueles que começam as atividades esportivas enquanto jovens. Alguns jogadores relatam que começaram a participar de esportes de alto rendimento aos cinco anos de idade e outros são pressionados a se profissionalizar ainda na adolescência.

Estas situações são bastante corriqueiras.

Uma destas celebridades do esporte, dentre as que se aposentaram precocemente, pode ter sido influenciada por este fator. A atleta Jennifer Capriati era um fenômeno no tênis mundial e tornou-se profissional com, pasmem, 13 anos de idade. Graças a um contrato milionário com uma empresa de vestuário, era mais rica que a maioria dos tenistas antes mesmo de ter batido na bola como profissional.

A fama e fortuna na tenra idade podem ter influenciado o seu abandono no tênis e posteriormente o uso de drogas. Por sorte, ela conseguiu retornar de forma bem sucedida há alguns anos atrás.

Jennifer atribuiu a redução do estresse ao apoio dos pais e ao acompanhamento psicológico, diferentemente da época que era pressionada pelos mesmos e pelos patrocinadores.

Os ambientes esportivos são altamente competitivos e estes atletas jovens treinam entre 25 e 30 horas semanais com pouco tempo livre para férias. Além deste início precoce e da pressão e expectativa por resultados expressivos, o treinamento na maioria das vezes dura o ano inteiro e os intervalos entre as temporadas são curtos.

Esta é uma realidade mundial.

Há até mesmo os esportes individuais que não dão a oportunidade de férias aos seus atletas como a ginástica, natação e tênis por exemplo.

A seguir, apresento para vocês uma famosa tabela relacionando as demandas situacionais comuns ao burnout e treinamento excessivo em jovens atletas, a avaliação cognitiva da situação vivenciada pelos atletas bem como suas respostas fisiológicas e psicológicas, além das respostas comportamentais e fatores da personalidade e motivacionais associados que sofrem alteração.

Esta tabela foi idealizada por D. Gould (1996) e é chamada de “Burnout in competitive Junior tennis player: a quantitative psychological assessment”, the Sport Psychologist 10(4): 341-366

Demandas Situacionais Avaliação cognitiva da situação Respostas fisiológicas e psicológicas Respostas comportamentais Fatores de personalidade e motivacionais
Demandas muito
conflitantes
Sobrecarga percebida Diminuição da motivação  Afastamento físico Alto nível de ansiedade-traço
 Falta de controle ou fraqueza; dependência  Poucas realizações significativas  Fadiga  Afastamento emocional  Baixa autoestima e percepção de baixa competência
 Altas expectativas próprias e alheias  Falta de significado e desvalorização da atividade  Diminuição da concentração  Afastamento psicológico  Orientações competitivas: medo de fracasso, medo de má avaliação
 Pouco apoio social  Ausência de prazer  Ganho ou perda de peso  Queda no desempenho  Autoconceito unidimensional
 Demanda de tempo excessiva  Estresse crônico  Suscetibilidade a doença ou lesão  Desistência durante o jogo, displicência  Alta necessidade de agradar os outros
 Relações sociais limitadas  Impotência aprendida  Mau humor e impaciência  Comportamento rígido, inadequado  Baixa positividade
 Comportamento dos pais: feedback restritivo, inconsistente feedback negativo  Satisfação de vida diminuída  Sono insatisfatório  Dificuldades interpessoais  Autocrítica
 Comportamento do técnico: feedback inconsistente, feedback negativo  Crise de identidade  Raiva; irritabilidade  Queda no desempenho escolar  Perfeccionismo
 Lesões  Sufocado, preso, sem saída  Dor muscular  Resistência ao tratamento  Percepção de baixo controle
 Carga de treinamento: repetitivo, muito   Sem resultados conclusivos  Tédio  Sem resultados conclusivos  Frustração

Esta tabela ajuda a explicar inúmeros fatores ligados ao burnout esportivo, e mais, mostra como os fatores são individualizados mas nem por isto deixam de ter ligações em comum para o abandono do esporte.

Sintomas de treinamento excessivo e burnout esportivo

Os sintomas sempre estarão acompanhados de razões físicas e psicológicas para emergirem.

  • Alguns sintomas comuns de treinamento excessivo incluem fadiga física, esgotamento mental, mau humor, depressão, apatia e transtornos do sono.
  • Os sintomas de burnout esportivo incluem perda de interesse, falta de desejo de jogar, esgotamento físico e mental, falta de preocupação, depressão e ansiedade aumentada.

O excesso de treinamentos afeta o desempenho esportivo e a saúde mental.

Temos a impressão errônea de que atividades físicas fazem os atletas sentirem-se melhores em termos de humor e até mesmo em sua condição física, quando na realidade as alterações advindas de uma carga excessiva extrapolam as capacidades físicas e mentais de equilíbrio, o que gera estresse significativo e portanto, humor alterado negativamente.

É comum encontrarmos atletas com estados depressivos, raiva, fadigados e com diminuição de energia física. A adequação da carga de treinamento mostra sinais totalmente inversos de humor.

Abaixo, relaciono alguns dos sintomas mais comuns advindos desta carga excessiva de treinamentos e burnout esportivo.

Sinais e sintomas de treinamento excessivo

  • Desempenho insatisfatório
  • Apatia
  • Letargia
  • Transtorno do sono
  • Perda de peso
  • Frequência cardíaca de repouso elevada
  • Dor ou sensibilidade muscular
  • Mudanças de humor
  • Pressão sanguínea de repouso elevada
  • Transtorno gastrintestinais
  • Recuperação demorada após esforço
  • Perda de apetite
  • Lesões por excessos
  • Deficiências do sistema imunológico
  • Perda de concentração

Sinais e sintomas do burnout

  • Baixa motivação ou energia
  • Problemas de concentração
  • Perda do desejo de jogar
  • Falta de preocupação
  • Transtorno do sono
  • Esgotamento físico e mental
  • Autoestima diminuída
  • Afeto negativo
  • Mudança de humor a abuso de substâncias
  • Mudanças em valores e crenças
  • Isolamento emocional
  • Ansiedade aumentada
  • Altos e baixos

Tratamento e prevenção

Agora que você já conheceu o significado do treinamento excessivo e burnout esportivo, nosso próximo objetivo é que você aprenda como desenvolver programas e estratégias que ajudem os profissionais do esporte a prevenir essas condições ou, pelo menos, a tratá-las efetivamente.

Por isto, deixo algumas sugestões a seguir:

Monitorar estados críticos nos atletas:

O nível de estresse, as fontes de estresse (dentro e fora de campo), os grandes volumes de treino e atividades de recuperação não realizados adequadamente estão presentes nestes casos.

Instrutores de academia, técnicos, especialistas em medicina esportiva e os próprios atletas podem monitorar esses estados para que os atletas possam ser identificados e ajudados nos primeiros estágios de um treinamento excessivo e burnout. Alguns atletas influenciados por pressões externas, ou até mesmo, desconhecimento, podem começar a ser auxiliados com o autoconhecimento.

Promover a comunicação:

Quando os profissionais analisam de forma construtiva seus sentimentos e os comunicam aos outros, a ocorrência de burnout é menos provável e, caso ocorra, é menos grave. Técnicos, atletas, árbitros, preparadores físicos e professores de educação física podem expressar seus sentimentos de frustração, ansiedade e desapontamento e buscar o apoio de colegas e amigos.

Deve-se encorajar essas pessoas a criarem redes de apoio social que estejam ao alcance quando necessário. Isto pode estimulado a partir de dinâmicas de grupo que promovam a autoconsciência e prevenção de lesões.

Trabalhar as metas de curto prazo para competição e treino:

Estabelecer metas de curto prazo com incentivos para alcançá-las não apenas fornece feedback de que o atleta está no caminho certo, mas também aumenta a motivação em longo prazo. Fazendo isto, este atleta pode aumentar o autoconceito. Você pode estabelecer metas diversificadas e adaptadas ao momento da temporada ou grupo de atletas.

Propor folgas para relaxamento:

No esporte de alto rendimento é comum que os atletas treinem durante o ano todo sob pressão exacerbada. Não há uma regra em relação as folgas como trabalhadores comuns que sabem quando tirarão férias ou terão folga aos finais de semana.

É mito dizer que mais é melhor nestas circunstâncias, mas no mundo esportivo, tirar folga parece ter uma conotação de dedicação pela metade e de que isto os fará perder campeonatos. Porém, consideramos que diminuir a carga de treinamentos aumenta significativamente os níveis de saúde mental e consequentemente isto melhora os níveis energéticos e de equilíbrio do corpo e mente.

Ensinar atividades de auto-regulação:

Atividades como relaxamento, mentalização, estabelecimento de metas e diálogo interior positivo podem evitar este estresse gerado pelo burnout.

Ajudar a manter uma perspectiva positiva:

Um foco positivo significa trabalhar as coias que o atleta pode controlar a fim de melhorar e não dar destaque a críticas injustificadas. Para promover uma perspectiva positiva nada melhor do que procurar outras pessoas que possam fornecer apoio social.

Incentivar a manter uma boa condição física:

O corpo e a mente mantêm uma relação contínua. O estresse crônico gerado pelo burnout cobra do corpo a sua tentativa em vão de se autorregular. Desta forma, é fundamental pedir aos atletas que se cuidem por meio de alimentação saudável e exercícios sem exagero. Comer de forma inadequada, ganhar ou perder muito peso apenas contribui para baixa autoestima e autoconceito.

Administrar as emoções pós-competição:

Embora muitos técnicos e atletas saibam controlar a ansiedade e a tensão antes do jogo, poucos consideram o que acontece após a competição. O encerramento de uma partida não encerra os sentimentos psicológicos intensos despertados pela competição. As emoções frequentemente se intensificam e estouram em discussões, brigas, bebedeiras e outros comportamentos destrutivos.

Por outro lado alguns atletas tomam para si a responsabilidade e mostram sinais de desânimo, ficam deprimidos ou retraídos.

Podemos listar algumas estratégias de como lidar com emoções pós-jogo juntamente com o técnico:

Promover uma atmosfera de apoio, concentrar nas emoções dos jogadores, ficar ao lado da equipe na derrota ou vitória, fazer uma avaliação realista do desempenho de cada atleta, conversar até mesmo com aqueles que não jogaram, promover uma atividade em grupo para a equipe logo após o jogo, não permitir que os membros da equipe se vangloriem demais na vitória ou fiquem extremamente deprimidos pela derrota e por fim, deixe claro que é necessário se preparar para o próximo adversário.

 

E essa é a parte bacana da psicologia, conseguir promover o bem-estar emocional nos mais diversos contextos. Para saber mais sobre esse tema, dá uma olhada na referência desse artigo: Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício-Robert S. Weinberg e Daniel Gould-Artmed-5 edição-2016

Autor

Eduardo Souza

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