Ao relacionar-se com o mundo, o sujeito desempenha diversos papéis sociais. Alguns são experimentados como fundamentais para a sua integridade, outros são vividos como secundários. Em uma sociedade capitalista, competitiva e produtiva como a que vivemos, as atividades laborais tornam-se importantes pilares da subjetivação do homem.

Geralmente, o trabalho é associado às atividades remuneradas, desempenhadas em ambiente organizado por rotinas e normas. Através do trabalho, o homem transforma o mundo enquanto por este é transformado. Desempenhar uma atividade laboral favorece o desenvolvimento de autonomia, autoconceito, autorealização, autoestima, vínculos sociais e possibilita a expressão da criatividade e seu sustento financeiro.

Podemos dizer que, em nossa sociedade, a vida recebe significados e organiza-se a partir dos horários, relacionamentos afetivos e interesses do mundo laboral.

Vocês concordam?

O trabalho passa a ocupar grande parte do nosso cotidiano. Muitas pessoas limitam seu projeto de vida ao período em que estão trabalhando, mostrando-se incapazes de elaborar metas que vão além do âmbito profissional. Com a falta de planejamento, ao desligar-se do emprego, o idoso pode sofrer com as diversas mudanças decorrentes desse evento.

A falta de investimento na educação e treinamento de profissionais mais velhos é muitas vezes fundamentada na crença de que idoso já não apresenta capacidade de aprender. O colaborador idoso é visto, com freqüência, como alguém menos produtivo, mais lento e desatualizado. Desse modo, idosos sofrem pressão para se aposentar e ceder lugar para os jovens recém-saídos das Universidades.

É bem verdade que acompanhamos, nos últimos anos, o retorno de profissionais com mais idade às empresas e instituições. Quem aí já assistiu ao filme “Um Senhor Estagiário”?

Significados da Aposentadoria

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A aposentadoria surgiu no Brasil no início do século XX, sendo a classe operária a mais ativa pela busca de defesa e amparo financeiro aos funcionários com mais idade. Essa luta deu origem aos movimentos a favor da criação de leis, institutos e caixas previdenciárias.

Sabemos que cada pessoa vive a aposentadoria de uma forma singular, atribuindo à ela diferentes significados. Estes só poderão ser compreendidos se percebidos no contexto de vida e dos meios socioeconômico, político e cultural dos quais o sujeito faz parte.

Fatores como a história de vida, habilidades e limitações, o valor que o trabalho e seu contexto têm na vida da pessoa, a existência de outros círculos sociais e de amizade, estão relacionados ao modo como cada um lida com seu processo de aposentadoria.

Há quem diga que se aposentar é recolher-se à vida privada, experimentando abandono e inatividade. Outro sentido bastante aplicado à aposentadoria é o de jubilamento, ou seja, um afastamento remunerado do trabalho como meio de premiar ou recompensar os esforços empregados durante todo o período produtivo.

Uma pesquisa realizada por Graeff (2002) aponta para as diferentes formas de perceber e vivenciar a aposentadoria.

Para alguns idosos, a aposentadoria adquire significado de recompensa pelos seus anos de contribuição e esforço. Trata-se de um momento para usufruir de descanso financiado pelo Estado.

Entretanto, a quantia recebida mensalmente pelos aposentados é percebida como insuficiente para a manutenção de suas despesas. A sensação de injustiça por não receberem o que acreditam ter contribuído, juntamente com a perda do status social faz com que as expectativas positivas em relação ao futuro diminuam e o sentimento de desilusão aumente.

O pesquisador identificou que a falta de uma rotina ajudaria os aposentados a encararem essa etapa de suas vidas como um momento de ociosidade ou de férias permanente, devido à ausência de certas responsabilidades comuns no período de trabalho.

É interessante ressaltar que descanso e desocupação assumem significados diferentes.

A primeira opção é percebida enquanto uma escolha pessoal, enquanto a segunda é vista enquanto incapacidade e inatividade do próprio indivíduo. A sensação de serem pessoas “paradas”, improdutivas, sem reconhecimento social pode gerar sofrimento e afastar a euforia presente no início do processo de aposentadoria.

Por fim, a aposentadoria foi descrita como uma Segunda Vida, podendo ser vivenciada de modo positivo, como um momento para começar um novo caminho buscando novas atividades e desenvolvendo outras aptidões, ou de modo negativo, à medida que relacionam aposentadoria com improdutividade e morte.

Sentimentos relacionados ao afastamento do trabalho

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Diferentes estudos afirmam que o afastamento do trabalho é a principal perda vivida pelo sujeito adulto, cujos desfechos alternam-se entre a possibilidade de desenvolvimento psicológico e a estagnação.

No período de aposentadoria, esperanças de uma melhor qualidade de vida intercalam-se com diversos medos, como por exemplo, o de adoecer, envelhecer e empobrecer, revelando o caráter ambíguo dessa experiência.

Trata-se de um período de inatividade reconhecido e autorizado pela sociedade em que, passado os primeiros momentos de euforia, o tempo livre pode transformar-se em sensação de solidão e inutilidade. O isolamento social e a falta de projetos para o futuro favorecem a perda de papéis sociais e adoecimento físico e mental.

Os indivíduos que não planejaram seu afastamento podem vivenciá-lo como a perda da identidade e do equilíbrio emocional.

Para os idosos cujas relações familiares são insatisfatórias, a aposentadoria pode adquirir o significado de “fim do refúgio”. Enquanto inseridos na rotina do trabalho, esses sujeitos viam-se livres dos conflitos domésticos. Uma vez afastados do trabalho, passam a participar mais freqüentemente da dinâmica doméstica e domiciliar.

Mesmo para os que a desejam, a aposentadoria pode gerar ansiedade, devido às mudanças que acarreta. Dentre as transformações, citamos a dissolução ou o enfraquecimento das relações sociais e dos círculos de amizade, mudanças na rotina e a perda do status social, afetando a identidade e a autoestima do sujeito.

Diversas pesquisas fazem referência às mudanças financeiras trazidas pelo afastamento da atividade produtiva. Algumas pessoas aposentam-se, mas continuam exercendo a profissão ou outras formas de trabalho, para a complementação da renda. Outros permanecem ativos com o intuito de preencher o vazio social experimentado.

Ainda relacionado ao aspecto financeiro, sabemos que o envelhecimento provoca o aumento dos gastos, principalmente os relacionados à saúde. Além disso, o período de aposentadoria pode coincidir com o ingresso dos filhos na universidade, fato que preocupa muitos aposentados. Tais pessoas referem inquietação em não ter condições econômicas para arcar com os estudos dos filhos, pois percebem a aposentadoria como um corte na renda financeira.

Zanelli e Silva (1996) evidenciam a importância dos laços afetivos e do grau de satisfação encontrado na atuação profissional.

Segundo eles, os profissionais cujas relações com o ambiente e colegas de trabalho mostram-se mais estreitas, apresentam maiores dificuldades durante a vivência do processo de aposentadoria. Da mesma forma, aquelas pessoas que, em seu trabalho, não se sentem realizadas com sua atuação e que esperavam ter mais tempo para conseguir concretizar outros planos profissionais, revelam maior inabilidade em lidar com esse rompimento.

A prática de outras atividades, após a consumação da aposentadoria, pode representar uma boa forma de evitar repercussões psicológicas como a depressão, alcoolismo e ansiedade, pois possibilitam ao sujeito exercer novos papéis sociais, estabelecer novas relações sociais e reforçar sua autoestima e autoimagem.

França (2002) defende o estabelecimento de um plano de vida que harmonize aspectos como saúde, lazer, vida familiar, relacionamentos, afetividade, participação sócioeconômica na comunidade, atividade laboral de menor carga horária, assim como dispor de um tempo para si e para o ócio como fator importante para a adaptação à aposentadoria.

A aposentadoria vista pela psicologia organizacional

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A Psicologia Organizacional pode contribuir bastante ao desenvolver, nas empresas e instituições, projetos voltados à preparação para a aposentadoria. Embora existam diferentes pesquisas voltadas a esses projetos, poucas empresas investem na sua execução.

O Estatuto do Idoso, aprovado pela Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, recomenda que programas de preparação para a aposentadoria sejam realizados com antecedência mínima de um ano, tendo como objetivo auxiliar o sujeito a construir novos projetos, de acordo com seus interesses e habilidades. A própria Política Nacional do Idoso, de que trata a Lei nº 8.842 de 4 de janeiro de 1994, estimula a criação desses programas, tanto no setor público como no privado.

O planejamento da aposentadoria é de responsabilidade do sujeito, mas a sociedade e as empresas devem facilitar esse processo, concedendo apoio e estímulos.

Os Programas de Preparação para a Aposentadoria (PPA) surgem como um auxílio para aqueles que pretendem aposentar-se. Visam prevenir o surgimento de adoecimentos (físicos ou emocionais) e conflitos, trabalhando crenças equivocadas a respeito do envelhecimento, criando oportunidade para a reflexão sobre os significados do trabalho e os vínculos estabelecidos neste ambiente, propiciando informações relacionadas aos aspectos legais, econômicos, previdenciários e comportamentais da aposentadoria, incentivando a busca por novas áreas de interesse, possibilitando uma vivência positiva da aposentadoria.

Ao planejar seu desligamento do trabalho, a pessoa tem a oportunidade de vislumbrar outros papéis sociais a serem desempenhados e resgatar antigos sonhos.

De um modo geral, os programas de preparação para aposentadoria contemplam diferentes etapas:

  • Inicialmente, é realizado um levantamento das necessidades dos aposentáveis, por meio de entrevistas e/ou questionários: quais suas dúvidas, medos, interesses, em quanto tempo deseja aposentar-se, etc. Simultaneamente, é feito um levantamento teórico, ou seja, quais pontos são mais relevantes (e freqüentes nas pesquisas) a serem contemplados ao trabalharmos com o tema “aposentadoria”.
  • Em seguida, é criado o projeto em si: nome, identidade visual, duração, quantos participantes, quais temas serão abordados/de que forma/por quem. Geralmente, existe uma parte vivencial e uma parte mais teórica/informativa. Tendo isso bem estabelecido, o psicólogo e sua equipe iniciam a sensibilização e divulgação do programa, visando atrair os funcionários que atendam ao perfil.
  • Uma vez que o programa inicia, é importante realizar avaliações periódicas entre os participantes. Assim, a equipe mantém o programa coerente com as necessidades e possibilidades de cada grupo.

Vale ressaltar que o PPA não termina após a saída da empresa pelos funcionários. Estes devem ser acompanhados por um período (entre dois e cinco anos após sua aposentadoria) com o intuito de garantir apoio e auxílio na adaptação e enfrentamento desse importante evento.

  • Também cabe ao psicólogo organizacional desenvolver atividades que auxiliem a adaptação dos funcionários que permanecem na empresa após a aposentadoria dos colegas. Estes vão precisar aprender a lidar com a ausência dos companheiros de trabalho, com as alterações na equipe, às vezes acarretando mudanças de funções.

Alguns teóricos também apontam para a importância de desenvolver no ambiente de trabalho um momento de reflexão e criação de projetos pessoais, não apenas junto aqueles que irão se aposentar em breve. Tais pesquisadores afirmam que estimular projetos para além do trabalho é uma forma de cuidar da saúde mental dos funcionários, mesmo que esses tenham sido admitidos há pouco tempo.

Trata-se de um trabalho preventivo.

A aposentadoria pelo viés clínico

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Em relação à Psicologia Clínica, muito também pode ser realizado nas diferentes modalidades: psicoterapia individual, de grupo e de família.

Recordando alguns atendimentos na modalidade de psicoterapia individual, percebemos como são freqüentes os discursos de medo e angústia. Quadros de depressão e ansiedade são comuns entre os idosos que enfrentam esse evento do ciclo vital.

Outro dado interessante que a experiência clínica nos mostra e que aparece também nas pesquisas sobre o assunto é a diferença entre mulheres e homens durante esse processo de aposentar-se. Para eles, a dor do afastamento do ambiente laboral é sentida de modo muito intenso e até mais demorado.

As mulheres, por desempenharem outros papéis sociais, acabam contando com mais autossuporte e apoio externo. São elas as que mais buscam ajuda profissional diante de situações desorganizadoras.

Dentre as principais queixas, encontramos a preocupação com as finanças. Muitos idosos necessitam do valor do benefício para sobreviver. Em um momento econômico difícil, em que filhos e netos têm dificuldade de encontrar emprego, são esses pais/avós que garantem o sustento da família.

Outra queixa freqüente na psicoterapia é o medo da morte.

A aposentadoria, para aqueles que não voltam a desempenhar outra atividade profissional (mesmo que informal) caracteriza-se pela morte do papel de trabalhador, alguém útil, com valor. Mas a morte aqui também se relaciona com o fim da vida, uma vez que a maioria dos nossos pacientes não construiu nenhum projeto a curto, médio ou longo prazo para o que vinha depois da aposentadoria.

Boa parte dos pacientes atrelam aposentadoria com a entrada definitiva na velhice.

É como se o afastamento do trabalho fosse o rito de passagem da vida adulta para a velhice. É interessante como, a partir desse evento, questões ligadas ao envelhecimento passam a ocupar lugar central durante as sessões. Ao disponibilizar um espaço para que o idoso fale sobre seus medos e angustias, o psicólogo clínico os ajuda a perceber suas potencialidades e recursos pessoais, sociais, financeiros para lidar com o momento de forma mais saudável.

Durante as sessões, é possível trabalhar questões relacionadas ao sentido da vida, ao fortalecimento de novos papéis e vínculos sociais, as resgate e construção de um novo projeto de vida, aos cuidados com a saúde, dentre outras possibilidades.

Em relação à psicoterapia familiar, às vezes é importante ser feito o encaminhamento para tal modalidade. Como já foi dito anteriormente, a saída do trabalho representa, muitas vezes, o regresso para casa e a proximidade com questões familiares por muito tempo evitadas.

Para algumas esposas, ter o marido constantemente em casa, opinando sobre temas que anteriormente só cabia a ela decidir, projetando nelas e nos filhos suas frustrações e medos ligados à aposentadoria gera um enorme sofrimento. A volta para casa significa reencontro com aquele(a) parceiro(a) e a necessidade de rever aspectos da dinâmica do casal e da família.

Na clínica também existe a possibilidade de realizar a Reorientação Profissional, ou seja, após a aposentadoria, o idoso pode buscar novos projetos profissionais.

O psicólogo auxilia o sujeito a compreender suas escolhas anteriores, o que o motivou a realizar tal escolha no passado, quais suas áreas de interesse e habilidades. A reorientação profissional ajuda no resgate de projetos profissionais que ficaram para trás, ou na construção de novos planos.

Os idosos buscam esse serviço tanto porque precisam de uma recolocação no mercado de trabalho para complementar sua renda, como para preencher o tempo vazio ou realizar um sonho antigo.

Ou seja…

Dog Kiss

É muito importante, ainda no ambiente de trabalho, conceder ao indivíduo um espaço para refletir e preparar-se para essa transição, pois aqueles que possuem a oportunidade de estabelecer metas concretas para o período de aposentadoria apresentam-se melhor preparados para enfrentar a nova situação.

O desligamento abrupto pode potencializar desajustes e acarretar sofrimento. Há inúmeros relatos de adoecimento, separações conjugais e suicídios após os primeiros anos de aposentadoria.

Diante de todo esse contexto, o psicólogo pode intervir junto ao idoso em fase de pré-aposentadoria ou já aposentado.

A atuação não precisa limitar-se ao idoso, é possível e importante atuar nas organizações, junto aos familiares e comunidade.

 

FRANÇA, L. H. Repensando Aposentadoria Com Qualidade: um manual para facilitadores de programas de educação para aposentadoria. Rio de Janeiro: CRDE/UnATI/UERJ, 2002.

GRAEFF, L. Representações Sociais da Aposentadoria. Textos Envelhecimento, vol.4 no.7, 2002.

ZANELLI, J. C.s e SILVA, N. Programa de Preparação para Aposentadoria. Florianópolis: Insular, 1996.

Autor

Singular Idade

singular.idade.web@gmail.com

Esse é um espaço em construção, um ponto de partida e de encontro para falar sobre o envelhecimento em suas mais diversas formas. Somos duas amigas, psicólogas e apaixonadas pela Psicogerontologia, uma morando no Brasil e a outra na Espanha. Nós formamos o Singular Idade. Juliana Rêgo é especialista em Gerontologia pela Universidade de Fortaleza e Clicia Peixoto é doutoranda em Psicogerontologia na Universidade de Valência.

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