No último mês li uma Nota de Esclarecimento do Conselho Federal de Psicologia no Facebook que explicava sobre uma matéria publicada na Exame com o nome “’WhatsApp da terapia” – assunto que  gerou muita polêmica entre os psicólogos, pois a grande maioria estava indignado pelo fato do CFP ter credenciado e aprovado esse serviço.

Realmente o aplicativo estava totalmente fora dos padrões exigidos pela Resolução 11/2012 e não existe nenhuma fundamentação científica na proposta do serviço.

Todo esse acontecimento me fez chamar a atenção para a gravidade de como a nossa categoria está se posicionando e agindo para resolver questões como essa.

A grande verdade é que, enquanto ficamos discutindo questões irrelevantes e que já estão ultrapassadas, como por exemplo, se o atendimento psicológico online é eficiente ou não, outros profissionais que não são psicólogos já estão ocupando a nossa cadeira em várias áreas. Um exemplo clássico são os profissionais não psicólogos que oferecem Coaching.

Desde 2011 participo ativamente e acompanho de perto todo o desenvolvimento da psicologia online no Brasil e por este motivo acredito que seja relevante chamar a atenção de você, colega psicólogo, para esse grave e perigoso cenário que a psicologia brasileira está entrando.

Precisamos olhar com urgência para dentro da nossa profissão a fim de preparar e qualificar os profissionais de psicologia para os novos desafios que estão surgindo, ao invés de ficar enaltecendo e criticando o que está lá fora.

No final do dia, o aplicativo está ainda em funcionamento, pois após todo esse alvoroço, o empresário decidiu não oferecer mais serviço de psicologia, mas sim de “terapia” onde “terapeutas” atenderão no aplicativo. Com isso, nem o CFP, ou outro órgão poderão fiscalizar ou coibir essa atividade mesmo sabendo que grande parte do marketing que chama para o aplicativo está voltado ao perfil do trabalho que o psicólogo exerce junto população.

Com base nesse contexto, acredito que seja pertinente compartilhar com você um pouco da minha experiência e aprendizado que tenho tido nesses últimos anos e convido você a mergulhar nessa reflexão.

Começo de tudo: a ideia de atender online e muita vontade de fazer a diferença!

Euphoric And Surprised Winner Winning Online

A ideia em atender online apareceu quando uma amiga me perguntou: “Por que o psicólogo não atende pacientes através da internet? Como eu viajo muito a trabalho, não consigo ir toda semana na terapia. Como sabe estou sofrendo muito com o rompimento do meu namoro e preciso de ajuda.”

O ponto de interrogação apareceu na minha mente e fiquei incomodada por não ter a resposta, afinal em 2010 a tecnologia já estava bem avançada e eu trabalhava na área de RH de uma empresa de tecnologia.

No dia seguinte, lá estava eu fazendo a minha pesquisa.

E para minha surpresa, o Psicólogo podia sim atender através da internet, pois tínhamos uma Resolução definida desde 2005 que permitia orientação psicológica em diversas áreas desde que pontuais e informativas tais como: afetivosexual, orientação profissional, aprendizagem, ergonômica, consultorias a empresas, utilização de testes psicológicos informatizados com avaliação favorável, processos prévios de seleção de pessoal.

Após uma intensa pesquisa, percebi que até aquele momento não havia quase nada sobre o tema no Brasil; poucas matérias na mídia e a ausência de sites especializados.

E nesse momento tive a ideia de construir uma plataforma que pudesse conectar pacientes e psicólogos com total segurança e privacidade. Após muito trabalho, investimento e madrugadas fazendo testes no sistema, consegui colocar no ar a primeira plataforma de atendimento psicológico online, e em 6 meses já estávamos com 15 psicólogos cadastrados.

Entretanto faltava algo fundamental para ativar o serviço: a aprovação do Conselho Federal de Psicologia

A cultura do medo

People pointing a girl hidden behind a computer

Desde a ideia até a finalização do site, já havia se passado 9 meses. Nesse tempo, estudei e aprendi muito sobre o atendimento psicológico via internet, inclusive estava completando a minha formação como Cyberconsellor pela Universidade de Toronto.

Mas apesar de naquele momento estar muito confiante sobre o conhecimento teórico do atendimento online, meus medos começaram a surgir, afinal não tinha a experiência prática e não sabia como seria a aceitação dos pacientes. E pior, se o CRP não aprovar? Se fizer algo errado e o CRP cassar minha licença?

Fiz a inscrição no CRP SP e recebi uma lista de alterações a fazer para adequar o site. Confesso que fiquei muito irritada, e comecei a criticar bastante a Resolução e a questionar o quanto o CFP estava atrasado nessa área, pois acreditava que não deveríamos ter limitações de número de sessões e que o Conselho deveria liberar a psicoterapia online no país.

Por coincidência, nesse mesmo ano, o CRP SP estava organizando um evento nacional justamente para discutir a Resolução de 2005 e como estava a dimensão da psicologia online no país. Fiz a minha inscrição, e fiquei animada, afinal seria uma ótima forma de eu contribuir e claro, chegar lá e reforçar o quanto a psicologia brasileira precisava investir no mundo virtual para atender a nova demanda da sociedade.

Ao chegar na sede, fomos recebidos com muita alegria, e com uma bela mesa de café da manhã.

No auditório havia em torno de 20 psicólogos presentes e 35 psicólogos online – número baixíssimo para um evento que estava discutindo algo extremamente importante para o futuro da psicologia brasileira.

Durante os 2 dias houveram apresentações, debates, palestras, enfim, sendo que todos os painéis traziam informações sobre a psicologia online. No final do evento foi formado um grupo de trabalho sob a supervisão do conselheiro Luiz Eduardo Berni que tinha como objetivo discutir e levantar questões importantes  para o CFP revisar na Resolução de 2005.

Após esse trabalho e a realização de uma plenária nacional, em Janeiro de 2013 foi publicada a Resolução 11/2012 que está ativa até hoje e tem como base a permissão para as seguintes atividades:

  1. As Orientações Psicológicas de diferentes tipos, entendendo-se por orientação o atendimento realizado em até 20 encontros ou contatos virtuais, síncronos ou assíncronos;
  2. Os processos prévios de Seleção de Pessoal;
  3. A Aplicação de Testes devidamente regulamentados por resolução pertinente;
  4. A Supervisão do trabalho de psicólogos, realizada de forma eventual ou complementar ao processo de sua formação profissional presencial;
  5. O Atendimento Eventual de clientes em trânsito e/ou de clientes que momentaneamente se encontrem impossibilitados de comparecer ao atendimento presencial.

Confesso que naquele momento não fiquei satisfeita, pois as normas ficaram mais rígidas ao invés de ficarem mais abertas. Após esse evento acabei me aproximando mais do CRP SP para tirar dúvidas e obter um apoio quando era preciso.

Após toda essa experiência, o meu medo do se transformou em um grande respeito pelos profissionais que trabalham lá, pois são psicólogos muito comprometidos em fazer com que a psicologia no Brasil cresça de forma sustentável e com muita qualidade.

Não posso deixar de citar a importância do trabalho desenvolvido pelo ex-conselheiro Luiz Eduardo Berni e a assistente técnica do CRP SP Christina Zeppini para a evolução da psicologia online no país.

Hoje entendo a importância do papel do CRP para a profissão e os motivos que levaram a manter uma resolução rígida para o atendimento via internet, pois imagine o que aconteceria se não tivéssemos essa regulamentação hoje para nos proteger e blindar de profissionais e empresas oportunistas?

Enquanto a categoria estiver insegura e sem preparo para oferecer um serviço de qualidade para a população, acredito que seja importante mantermos essas limitações.

Regulador ou transformador?

Problem solving concept. Bad and good concept

Após ler os comentários de psicólogos sobre a nota de esclarecimento publicado pelo CFP comecei a refletir sobre o papel do Conselho e percebi que muitos colegas transferem para o CFP a total responsabilidade dos problemas existentes hoje em nossa profissão.

Nessa hora, esquecemos totalmente que a construção de todo o conteúdo e a história que o CFP carrega e foi construída por nós, psicólogos.

Não estou aqui querendo defender o CFP, pois sei que como qualquer organização tem seus problemas e muito a melhorar. Entretanto não posso deixar de expressar que existe um desinteresse altíssimo dos profissionais em relação aos assuntos da categoria, e a área de psicologia online é um grande exemplo disso.

Como citei acima, no evento que foi aberto para discutir a revisão da Regulamentação de 2005, participaram em torno de 60 psicólogos dos mais de 280.000 ativos no país.

O CFP é apenas um regulador das normas e condutas que nós psicólogos criamos e aprovamos ao longo da história, pois quem faz e transforma a psicologia no Brasil, somos nós, os psicólogos.

Atendimento virtual:  nem certo, nem errado

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Atualmente me deparo com discussões se o atendimento online é eficaz ou ainda, sobre comparações dos prós e contras desse atendimento.

O fato é que essa discussão não deveria existir mais, afinal já há comprovações científicas no Brasil* indicando que o atendimento online é tão eficaz quanto o atendimento presencial, e o mais importante, já está regulamentado.

*Tese de Doutorado defendida na UFRGS em 2014 pela Dra. Maria Adélia Minghelli Pieta: PSICOTERAPIA PELA INTERNET: A RELAÇÃO TERAPÊUTICA. Você pode acessar clicando aqui.

Obviamente existem pacientes e psicólogos que não irão se adequar ao atendimento virtual como ocorre em qualquer linha da psicologia. O mais importante é refletir sobre como podemos prestar um serviço de qualidade para a população a fim de proteger a nossa prática no país e principalmente, na qualificação e formação acadêmica dos profissionais de psicologia.

Investimos horas e horas discutindo sobre a prática da psicologia online, sobre o que pode ou não pode, e principalmente, sobre as questões éticas desse trabalho e esquecemos do que é mais importante, o nosso cliente.

No mundo de hoje, será que realmente conseguimos chegar e estar disponível para as pessoas que precisam do nosso trabalho? Estamos acompanhando e nos atualizando sobre a nova forma de comunicação e como a tecnologia tem impactado na organização social não só do Brasil como no  mundo? E sobre a mobilidade urbana, ainda é possível manter o mesmo set terapêutico que é nos ensinado na Universidade?

Na minha opinião, a resposta é NÃO para todas as questões acima.

A sensação que tenho é que  grande parte dos psicólogos ignora essa mudança, não adequando a sua atividade para essa nova realidade. Claro que para esses profissionais, a resistência é compreensível, afinal não aprendemos na universidade como atender via internet, como responder o email de um paciente, sobre os conceitos básicos do uso da tecnologia e as mudanças sociais/psicológicas que ocorreram em decorrência do desenvolvimento tecnológico nos últimos anos.

Aliás, ainda hoje, não existe nenhuma disciplina ligada à tecnologia na grade curricular do curso de Psicologia no Brasil.

Assustador, não?

Aprendemos a atender em um set terapêutico presencial com inúmeras regras construídas ao longo do tempo e quando o paciente pede para ser atendido via Skype ou envia um convite de amizade no Facebook, o psicólogo tende a ficar desconfortável com a situação e muitas vezes não sabe que atitude tomar, pois a tendência é que os antigos e novos conceito entrem em conflito.

Acredito que a psicologia online seja uma ponte de acesso ao paciente e não tem a pretensão de substituir linhas ou padrões técnicos de atendimento. O sucesso do trabalho está diretamente relacionado ao nosso comprometimento em investir de forma constante no conhecimento e na qualidade das ferramentas que oferecemos ao nosso cliente. Atender presencialmente também não garante que o psicólogo realizará um bom trabalho, concorda?

Concluindo… Organizando a própria casa

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Quando surgiu a oportunidade de escrever um artigo para a Academia do Psicólogo, pensei em apresentar um conteúdo mais informativo e didático, oferecendo dicas sobre a prática clínica do atendimento virtual, mas como a polêmica desse aplicativo ainda está intensa, achei muito mais produtivo fazer essa provocação para primeiro “organizar a casar” e compartilhar meus pensamentos sobre o cenário atual da psicologia online através da minha experiência prática.

Espero ter contribuído de forma positiva, pois meu objetivo é de continuar a desenvolver e fomentar essa área no país, ajudando o Brasil a ser referência mundial nesse tipo de atendimento.

Como fala o grande Quintana, “O segredo é não correr atrás das borboletas… é cuidar do jardim para que elas venham até você.”

E hoje, dentro de um mundo com tantas possibilidades o grande desafio para nós psicólogos é esse, fazer com o que nosso espaço se mantenha e seja defendido com muita qualidade, acolhimento e claro, estar totalmente disponível e acessível para quem precisa.

Autor

Milene Rosenthal

milenerosenthal@gmail.com

Psicóloga com especialização em Terapia Cognitiva e Pós-Graduada em Gestão de Recursos Humanos, e duas certificações como Cybercounsellor pela Universidade de Toronto. Em 2014 ganhou o prêmio Mulheres de Negócio do SEBRAE em 1o lugar. Atualmente é Diretora de Relacionamento na PsiDoc eHealth, Coordenadora e Instrutora na Certificação Cybercounsellor (Português) no núcleo Social Work da Universidade de Toronto e colaboradora no Blog TelaVita.com.br/blog

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